:[ Sin To Win ]:
 

setembro 03, 2005

[ Roubo de Folha Caída ]

Roubei do canteiro dele, o que ele traduziu do final de semana que passamos juntos:

De volta ao meu canteiro

As coisas que eu escrevi e não li, as que eu mandei se perderam no caminho também. O caminho entortou e parou na esquina de casa. Minha casa é longe da sua. No mapa não tem aquela rua e eu tive medo de não ver esses seus olhos cor de cajuína. A lua é uma fruta madura pendulando sobre a minha cabeça enquanto espero impaciente no banco da praça, atrás da igrejinha.

O medidor de horas me roubou as frases antes mesmo que eu dissesse. Eu não disse, mas você sentiu e olhou para o lado tentando entender o meu olhar perdido por entre as luzes do farol. Não é laranja nem canela, é um cheiro que eu não sei dizer e sempre, sempre me fará lembrar das horas passadas no seu canteiro.

Tudo isso ali, onde a sereia canta baixo para não espantar o pescador no seu barco espumado pelas ondas que arrebentam na areia. Ali, onde os loucos anoitecem gozando o que a sanidade não oferece. Tudo lento, quase parando quando eu quis voltar e olhar uma última vez sem evitar esbarrar no mar de gente que descia a rampa.

Quanto a mim, deixei a alegria escapar dos olhos e a saudade amarrada na mochila com dois nós e um laço. É hora de partir, ficar é um luxo que os loucos e amantes não costumam usufruir. Quanto a você, sei quase nada e esse nada me basta pra querer voltar, quem sabe, um dia.



agosto 11, 2005

[ It's only when I lose myself in someone else that I find myself ]

Uma de tantas músicas que me definem:

It's only when I lose myself in someone else
That I find myself
I find myself

Something beautiful is happening inside for me
Something sensual, it's full of fire and mystery
I feel hypnotised
I feel paralysed
I have found heaven

There's a thousand reasons
Why I shouldn't spend my time with you
For every reason not to be here
I can think of two
To keep me hanging on
Feeling nothing's wrong
Inside your heaven

I can feel the emptiness inside me
Fade and disappear
There's a feeling of contentment
Now that you are here
I feel satisfied
I belong inside
Your velvet heaven
Did I need to sell my soul for pleasure like this
Did I have to lose control to treasure your kiss
Did I need to place my heart in the palm of your hand
Before I could even start to understand

It's only when I lose myself in someone else that I find myself - Depeche Mode



março 07, 2005

[ Only Hope ]

There's a song that's inside of my soul
it's the one that I've tried to write over and over again
I’m awake in the infinite cold
but you sing to me over and over and over again

Chorus:
So I lay my head back down
and I lift my hands and pray to be only
I pray to be only yours
I know now you're my only hope

Sing to me the song of the stars
of your galaxy dancing and laughing and laughing again
when it feels like my dreams are so far
sing to me of the plans that you have for me over again

Chorus

I give you my destiny
I’m giving you all of me
I want your symphony
singing in all that I am
at the top of my lungs
I'm giving it back

Chorus



novembro 04, 2004

[ Lost Cause II ]

Beck

Your sorry eyes cut through the bone
Seu olhar triste atravessa os ossos
Make it hard to leave you alone
Torna difícil te deixar sozinho
Leave you here wearing your wounds
Te deixar aqui vestindo suas humilhações (seus ferimentos)
Waving your guns at somebody new
Apontando suas armas para um novo alguém.

[chorus]:
Baby you're a lost, baby you're a lost

Querido vc está perdido, querido vc está perdido
Baby you're a lost cause
Querido vc é uma causa perdida.

There's too many people you used to know
Há muitas pessoas que vc costumava conhecer
They see you coming, they see you go
Eles vêem vc chegando, eles vêem vc ir
They know your secrets, and you know theirs
Eles sabem seus segredos, e vc sabe os deles
This town is crazy, nobody cares
Essa cidade é louca, ninguém se importa

[chorus]
I'm tired of fighting, I'm tired of fighting

Eu estou cansado de lutar, eu estou cansado de lutar
Fighting for a lost cause
Lutar por uma causa perdida

There's a place you are going
Há um lugar onde vc está indo
You ain't never been before
Que vc nunca esteve lá antes
No one laughing at your back now
Ninguém ri pelas suas costas agora
No one's standing at your door
Ninguém está esperando na sua porta
That's what you thought love was for
Vc pensou que o amor era para isso.

[chorus]
I'm tired of fighting, I'm tired of fighting

Eu estou cansado de lutar, eu estou cansado de lutar.
Fighting for a lost cause
Lutar por uma causa perdida



novembro 03, 2004

[ Lost Cause I ]

“Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?... Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvela
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...”

(ALVES, 2000, p.90)



setembro 20, 2004

[ Valor ]

O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis ,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

Fernando Pessoa

Isso se aplica a nós, Renato.



[ Ternura ]

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo.
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas, nem a fascinação das promessas.
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um trasbordamento de carícias.
E só te pede que repouses quieta, muito quieta.
E deixe que as mãos cálidas da noite
Encontre sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes



julho 08, 2004

[ Para Que Sejamos Necessários ]



Transfere de ti para mim
Essa dor de cabeça, esse desejo, essa vidência.
Que careça em ti o meu excesso
Que me falte o que tu tens de sobra.
Que em mim perdure o que te morre cedo
E que te permaneça o que tenho perdido.
Que cresça, se desenvolva em teus sentidos
Que em mim desapareça.
Dá-me o que de possuir tu não te importas
E eu multiplico o que te falta e em mim existe.
Para que nosso encaixe forme uma unidade.
Indivisível.
- Que não se possa subtrair uma metade.


Bruna Lombardi

[ Recado Social ]

Estava lendo isso hoje, e acho que é de extrema importância ser do conhecimento de todos esse tipo de atividade. Assim você percebe que algumas pessoas não ficam sentadas esperando à morte chegar.



maio 24, 2004

[ O Rouxinol e A Rosa ]

– Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – lamentou-se o jovem Estudante. – Mas, em todo o meu jardim, não há nenhuma rosa vermelha.

De seu ninho, no alto de um azinheiro, o Rouxinol o ouviu e, admirado, olhou por entre as folhas.

– Nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim – lamentou-se. E seus lindos olhos se encheram de lágrimas. – Ah, como é frágil a felicidade! Li tudo que os sábios escreveram. Sei de todos os segredos da filosofia. Mesmo assim, por falta de uma rosa vermelha, sou um desgraçado nesta vida.

– Enfim, um verdadeiro amante – disse o Rouxinol. – Noite após noite cantei canções em seu louvor, sem nunca tê-lo conhecido. Noite após noite contei sua história às estrelas e agora o vejo. Tem os cabelos escuros como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que lhe falta, mas a paixão deixou-lhe o rosto pálido como o marfim e a tristeza selou seu semblante.

– O Príncipe dará um baile amanhã à noite – murmurou o jovem estudante – e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, dançaremos até o alvorecer. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, tomá-la-ei em meus braços e ela deitará a cabeça em meu ombro e em minha mão pousará a sua. Mas, não há rosas vermelhas em meu jardim. Por isso, eu me sentarei sozinho em um canto e ela nem tomará conhecimento de mim. Ela passará por mim sem me notar e meu coração se partirá.

– Aí está, de fato, o verdadeiro amante – disse o Rouxinol. – As canções que canto, ele as vive em sofrimento. As histórias com que me alegro são as de sua dor. O Amor é mesmo maravilhoso. É mais precioso que os diamantes e mais estimado que a mais fina opala. Pérolas e romãs não podem comprá-lo, nem se pode encontrá-lo nos mercados. Os comerciantes não o vendem e a balança não é capaz de medir seu peso em ouro.

– Os músicos se sentarão em suas galerias – disse o jovem estudante –, farão soar as cordas de seus instrumentos e minha amada dançará ao som das harpas e violinos. E ela dançará tão suavemente que seus pés não tocarão o chão. Os cortesãos, em seus trajes festivos, formarão rodas em torno dela. Mas, comigo ela não dançará, porque eu não tenho uma rosa vermelha para lhe dar.

Atirou-se então na grama, enterrou o rosto nas mãos e caiu em pranto.

– Por que ele está chorando? – perguntou um pequeno Lagarto Verde, ao passar ao seu lado com a cauda levantada.
– É. Por quê? – disse uma Borboleta, que voejava em busca de um raio de sol.
– É. Por quê? – sussurrou uma margarida a outra, a voz suave e delicada.
– Ele está chorando por uma rosa vermelha – disse o Rouxinol.
– Por uma rosa vermelha? – exclamaram. – Que ridículo atroz!

E o pequeno Lagarto, que era um tanto quanto cínico, caiu na gargalhada. Mas o Rouxinol sabia o segredo da tristeza do Estudante e pousou em silêncio no galho de um carvalho, refletindo sobre o mistério do Amor. De repente, ele abriu as asas castanhas e alçou vôo. Passou pelo pequeno bosque como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim. No centro do gramado, havia uma bela Roseira. E, quando ele a viu, voou em direção a ela e pousou em um de seus ramos.

– Dê-me uma rosa vermelha – pediu – e eu lhe cantarei a mais bela canção.

A Roseira, porém, sacudiu a cabeça.

– Minhas rosas são brancas – respondeu –, brancas como a espuma do mar e mais brancas que a neve que cobre a montanha. Mas vá ter com minha irmã que mora ao redor do velho relógio de sol. Talvez ela tenha o que você quer.

O Rouxinol então voou até a Roseira que morava ao redor do velho relógio de sol.

– Dê-me uma rosa vermelha – pediu – e eu lhe cantarei a mais bela canção.

A Roseira, porém, sacudiu a cabeça.

– Minhas rosas são amarelas – respondeu –, amarelas como os cabelos da sereia que reina em seu trono de âmbar e mais amarelas que o narciso que floresce nos campos antes que o ceifador venha com seu alfange. Mas vá ter com minha irmã que mora embaixo da janela do Estudante.

O Rouxinol então voou até a Roseira que morava embaixo da janela do Estudante.

– Dê-me uma rosa vermelha – pediu – e eu lhe cantarei a mais bela canção.

A Roseira, porém, sacudiu a cabeça.

– Minhas rosas são vermelhas – respondeu –, vermelhas como as patas das rolinhas e mais vermelhas que as grandes flores-de-coral que serpeiam nas profundezas do oceano. Mas o frio do inverno gelou minhas veias, a geada queimou meus botões e a tempestade quebrou meus ramos. Por isso, nenhuma rosa terei este ano.

– Tudo o que eu quero é uma rosa vermelha – desesperou-se o Rouxinol –, uma única rosa vermelha! Será que não há nenhum meio de conseguí-la?
– Há um meio – respondeu a Roseira –, mas é tão terrível que não ouso contar-lhe.
– Conte-me – disse o Rouxinol. – Não tenho medo.
– Se você quer uma rosa vermelha – prosseguiu a Roseira –, terá de cantar à luz do luar até nascer uma rosa, e tingí-la com o sangue de seu coração. Você terá de cantar para mim com o peito comprimido contra um espinho. Por toda a noite terá de cantar para mim com um espinho cravado no coração, até que o sangue que lhe dá vida corra em minhas veias e se torne meu.

– A Morte é um alto preço a se pagar por uma rosa vermelha – queixou-se o Rouxinol –, e a Vida é por todos estimada. Encanta-me pousar na verde relva e contemplar o Sol em sua carruagem de fogo e a Lua em seu rosário de pérolas. Doce é o perfume do jasmim; doces os lírios-do-vale e as magriças que desabrocham nas colinas. Ainda assim, o Amor é melhor que a Vida. E como pode o coração de um passarinho comparar-se ao de um homem?

Ele então abriu as asas castanhas e alçou vôo. Passou pelo jardim como uma sombra, e como uma sombra cruzou o pequeno bosque.

O jovem Estudante continuava estirado na grama, onde ele o deixara, e as lágrimas ainda não haviam abandonado seus lindos olhos.

– Alegre-se – disse o Rouxinol –, alegre-se; você terá sua rosa vermelha. Cantarei à luz do luar até nascer uma rosa e tingí-la-ei com meu próprio sangue. Tudo que lhe peço em troca é que seja um verdadeiro amante, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia (e quão sábia é ela...) e mais forte que o Poder (e quão forte este é...). As asas do Amor são da cor do fogo e, como o fogo, colorido é o seu corpo. Doces como o mel são seus lábios e seu hálito é como o incenso.

O Estudante, deitado na grama, levantou os olhos e ouviu, mas não entendeu o que o Rouxinol lhe dizia, pois não era capaz de compreender senão as coisas que se escrevem nos livros. O Carvalho, porém, entendeu. E se entristeceu, porque muito estimava o pequeno Rouxinol que um dia havia feito um ninho em seus galhos.

– Cante-me uma última canção – suplicou –, sentirei muita solidão quando você partir.

O Rouxinol então cantou para o Carvalho, e sua voz era como água vertendo de um jarro de prata. Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se e sacou de seu bolso um caderno e um lápis.

Ele tem método – pensou o estudante, enquanto atravessava o pequeno bosque a caminho de casa – isso não se lhe pode negar; mas terá sentimento? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas: sobra-lhe estilo e lhe falta sinceridade. E não se sacrificaria por outros, pois pensa apenas na música. Todo mundo sabe que a arte é egoísta. Não obstante, deve-se admitir que há belas notas musicais em sua voz. É uma pena que nada signifiquem e que de nada sirvam.

Entrou então em seu quarto, deitou-se em sua cama de palha e começou a pensar na amada. Um pouco depois, adormeceu.

E quando a Lua brilhou no céu, o Rouxinol voou até a Roseira e lançou-se de encontro ao espinho. Por toda a noite ele cantou com o espinho em seu peito, e a fria Lua de cristal inclinou-se e escutou. Por toda a noite ele cantou, o espinho cravando cada vez mais fundo no peito, até que seu sangue se exauriu.

Ele primeiro cantou o amor que nasce no coração de dois jovens. E no mais alto ramo da Roseira, uma linda rosa desabrochou. Uma a uma, as pétalas despontavam, assim como uma a uma soavam as canções. De início, a rosa era alva como a bruma que cobre o rio – alva como a face da manhã e cor de prata como as asas da aurora. Reflexo de uma rosa em um espelho de prata ou em uma lagoa de cristal, assim era a flor que nasceu no mais alto ramo da Roseira.

Mas a Roseira rogou ao Rouxinol que apertasse ainda mais o peito contra o espinho.

– Aperte mais, pequeno Rouxinol – disse a Roseira –, ou o dia nascerá antes que a rosa esteja pronta.

O Rouxinol então pressionou ainda mais o peito contra o espinho. E cada vez mais alto soava sua música, pois cantava a paixão que nasce na alma de um homem e de uma donzela.

As pétalas coraram-se de um delicado tom de rosa, como o que cora a face do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Mas, como o espinho ainda não atingira o coração do passarinho, o da rosa continuava branco, pois apenas o sangue do coração de um Rouxinol pode enrubescer o coração de uma rosa.

E a Roseira rogou ao Rouxinol que apertasse ainda mais o peito contra o espinho.

– Aperte mais, pequeno Rouxinol – disse a Roseira –, ou o dia nascerá antes que a rosa esteja pronta.

O Rouxinol então pressionou ainda mais o peito contra o espinho. E o espinho tocou seu coração, infligindo-lhe uma dor atroz. Cruciante, intolerável era a dor e cada vez mais frenética era a música, pois que ele cantava o Amor que a Morte torna perfeito, o Amor que no túmulo não morre.

E a linda rosa era agora escarlate, como a rosa que nasce no leste. Escarlate era a coroa de pétalas e rubro como um rubi era o seu coração.

Mas a voz do Rouxinol ficou mais fraca. Suas asinhas começaram a bater e uma fina névoa embaçou-lhe os olhos. Cada vez mais baixo ele cantava, e sentia algo a lhe apertar a garganta.

Então de seu peito irrompeu uma derradeira explosão de música. A Lua muito branca escutou-a e esqueceu-se da aurora, demorando-se no céu. A rosa vermelha escutou-a e, toda trêmula em êxtase, abriu suas pétalas no ar frio da manhã. Eco a conduziu até sua púrpura caverna nas colinas e acordou de seus sonhos os pastores adormecidos. Ela flutuou por entre os juncos do rio, que levaram sua mensagem ao mar.

– Veja! Veja! – exclamou a Roseira – A Rosa está pronta.

Mas, o Rouxinol nada respondeu, pois jazia morto no gramado com o espinho cravado no coração.

Ao meio-dia, o Estudante abriu a janela do quarto e espiou lá fora.

– Ora essa! Que sorte incrível! – exclamou – Uma rosa vermelha bem aqui! Nunca vi uma rosa como esta em toda minha vida. É tão deslumbrante que certamente deve ter um nome bem comprido em latim.

Então inclinou-se e arrancou a flor. Depois colocou seu chapéu e, com a rosa na mão, correu até a casa do Professor. Sentada à porta com seu cachorrinho deitado a seus pés, estava a filha do Professor, enovelando um carretel de seda azul.

– Você disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse um rosa vermelha – lembrou-lhe o Estudante. – Aqui está a rosa mais vermelha do mundo. Você vai usá-la junto ao peito esta noite e, quando estivermos dançando, ela lhe dirá quão grande é o meu amor por você.

A garota franziu as sobrancelhas.

– Não creio que ela combine com meu vestido – respondeu. – Além disso, o sobrinho do Tesoureiro da Cidade enviou-me jóias de verdade. E todo mundo sabe que jóias custam muito mais que flores.

– Palavra de honra que você é muito ingrata – disse o Estudante, nervoso.

E atirou na rua a rosa, que foi parar na sarjeta, onde acabou esmagada pela roda de uma carroça qualquer.

– Ingrato! – exclamou a garota. – Sabe de uma coisa? Você é muito grosseiro. Além do mais, não passa de um Estudante. E nem ao menos usa sapatos com fivela de prata, como os do sobrinho do Tesoureiro. Inacreditável!

Levantou-se então da cadeira e voltou para dentro de casa.

– Que tolice é o amor – refletiu o Estudante, enquanto retornava. – Não tem nem a metade da utilidade da Lógica. Além de não provar coisa alguma, está sempre iludindo as pessoas e fazendo-as acreditar em inverdades. Com efeito, não tem praticidade alguma. E, como hoje em dia praticidade é tudo, voltarei à Filosofia, vou estudar Metafísica.

De volta ao seu quarto, o Estudante retirou da prateleira um grande e empoeirado livro e começou a ler.

Oscar Wilde.



abril 25, 2004

[ Tocando em Frente ]

"Ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso, porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei

Conhecer as manhãs e as manhas,
o sabor das massas e das maçãs,

é preciso o amor pra poder pulsar,
é preciso paz pra poder sorrir,
é preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
compreender a marcha, e ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro levando a boiada,
eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou,
de estrada eu sou

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história,
e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz,
e ser feliz

Ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso porque já chorei demais

Cada um de nós compõe a sua história,
e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, e ser feliz."

Almir Sater



abril 09, 2004

[ Da série: Souvenir ]

Ao remexer meu baú de magia, encontrei isto aqui:

Soneto

Sou a que existe pelo mundo afora
vestida de mil formas e mil cores,
e, em toda parte estou, a qualquer hora,
a dar-lhe tanto graça como odores.

Nos dias atuais, bem como outrora,
sempre a inspirar os mais belos amores,
a humanidade toda que me adora,
me fez musa de poetas e pintores.

A frequentar palácio e catedral,
vou, também, à choupana e à cruz da estrada,
à festa mais alegre e ao funeral.

Sou algo assim como a expressão do amor
- a criação de Deus mais inspirada -
eu sou enfeite e vida - sou a flor.

Desconheço o autor.



março 15, 2004

[ Quero Falar Constantes Eu te Amo ]

"Era um homem e detestava se ver de ceroulas. Ela era Maria, e cada mancha na sua ceroula, cada botão e cada fio, cada odor e cada toque, faziam os bicos dos seios dela doerem com um júbilo que vinha do meio da terra. Estavam casados há quinze anos e ele tinha uma língua e falava bem e frequentemente disso e daquilo, mas raramente havia chegado a dizer eu te amo. Ela era sua mulher e falava raramente, mas o cansava com seus constantes eu te amo".

Espere a primavera, Bandini - John Fante.





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