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maio 27, 2005
[ Dormindo Cedo, Eu Sonho Mais ]
Depois de semanas eu consegui finalmente dormir e acordar num horário descente, mesmo com o insistente som de trimmmmmmmmmmm do telefone ao lado da minha cabeça. Era o moço-sabe-tudo-SCI-FI com aquela voz que me arrepia os pêlinhos da nuca. Ele me perguntava o porquê de eu não ter retornado a ligação ontem à noite enquanto eu me preocupava em olhar os passarinhos dando vôos rasantes em frente à janela. Continuava a observar os movimentos e os barulhos matinais, e o moço não sabia me dizer uma receita comum para se fazer peixe.
Levantei decidida a sonhar mais e a pegar o último ônibus para os seus braços, baby. Seja lá você quem for. Risos. Aguarde-me, por favor. Eu já vou, já chego, prometo que é rápido, meu querido. Irei correndo quando você me chamar. Quando me quiser, eu irei. Levarei um pouquinho de paz e umas manhãs que encontrei enroladas comigo na toalha. Você saberá de todos os meus inventos e intentos, e quantos copos de saudade, dor e amargura eu já bebi de um gole só. Deitarei ao seu lado quietinha, sonolenta, e esperarei o dia cair lá fora até virar manhã de novo, até o sol nascer pela janela, colorir o horizonte, com minha mão na tua barriga, minha alma na tua boca, meu coração nos teus dedos. E será tarde, muito tarde, quando dormiremos juntos. As almofadas aos pés da cama, as roupas espalhadas pelo chão, o CD de Massive Attack em repeat no computador, a luz se enfiando pelas frestas entre a coberta, os olhos fechando... Será tarde demais, meu querido. Todo o tempo do mundo acabará. Tarde demais.
maio 24, 2005
[ A Madrugada e Os Meus Conflitos ]
Passeamos com a morte de mãos dadas. Todos os dias. Todos os segundos. É a única certeza que temos. Instantes. O seu olhar cúmplice ao meu. Os momentos passando. Pra onde vamos? Vamos passear pela cidade. Cada ponto um sinal de perigo. Risos. A gasolina está acabando. A minha sanidade também. Eu não devia estar aqui. Eu sei. Beija vai. Não pára. Beija mais. Sinal vermelho. Os seus braços ao redor do meu corpo. O seu corpo entre as minhas pernas. O choro. Olhos vermelhos. Olhos paixão. Eu preciso te ajudar. Eu quero te penetrar. Dentro da alma. A calma está longe de chegar nessa madrugada. Espaços vazios. Calor intenso. Medo. O que acontece entre a gente é para sempre. Você me ama. Amiga. Amigo colorido.
abril 24, 2005
[ Constatação ]
Pra que ter domicílio
Se eu me quero
Pra viagem?
março 18, 2005
[ Sorrisos Colhidos ]
Guarde na memória o aroma das flores, garoto. Se, por sorte, houver entre os seus alguém com ares de jardim, chegue perto e colha algum sorriso. Enterre dentro de si abraços, beijos; mesmo os imaginários – não construa cercas entre o toque e a fantasia.
Deixe os primeiros passos criarem raízes, mesmo que pareça que te prendem ao chão – saberá depois que são eles o Teu ponto de partida: teu impulso para a vida toda.
Lembre das lesmas que você catou e pôs no bolso quando mal sabia andar, do teu olhar que via o vermelho e o negro apenas como diferentes até que alguém lhe mostrasse o sangue ou à noite.
Haverá gente flutuando a teu lado. Gente sem amarras, soltas no vazio de querer tudo sem saber por quê. Gente correndo por todos os lados – gente que até parada parecerá correr. Não se assustarão com teu olhar atônito.
Em toda esquina haverá um pedestal em que muitos desejarão subir para enxergar mais longe, mas suas cabeças, curiosamente, estarão curvadas e os olhos presos ao umbigo por uma fita cravejada de lantejoulas.
Guarde na memória os besouros que você viu lutar, a pomba esmagada na estrada e o cachorro com a cadela e o barulho deles, e o cheiro deles, a cor, a vida. Haverá bichos virtuais de toda espécie, mas ninguém poderá te convencer de que há um chip no teu coração e que basta um clic para te tirar do abismo. Ame o abismo. Ame qualquer coisa que te tire de um labirinto puro demais, limpo demais, seguro demais, com cheiro de hospital. Entregue-se ao que te empurra à vida. Role na grama sem prestar atenção às meninas de sapatos de plástico cor-de-rosa dizendo “ui”.
Haverá mentores – mulheres, homens, crianças, amigos, inimigos, ídolos, livros, personagens, tombos, melodias.
Haverá os que proclamam bibliografias, os que condenam a derrota, o suicídio, à desistência. Estes talvez apareçam com os pulsos cortados ou intoxicados em algum beco sem saída com o qual não contavam.
Muitos parecerão sábios – ilustrarão o próprio ser com referências coloridas, epígrafes de neon, calçarão as últimas tendências em aforismos, serão chamados cultos. E essa cultura lhes será tão cara que estampará seu caráter - uma vitrine - com uma plaquinha em baixo: não dôo, não troco, não vendo, não insista. E essa cultura não terá jamais o sabor dos sorrisos que não colheram, que ficaram em algum lugar, perdidos, esperando a contracena".
janeiro 14, 2005
[ Jeitinhos para Dormir ]
fios de cabelos molhados. na testa. nos ombros. descem. chamego das mãos. no corpo. na nuca. na testa. rosto com sorriso. com dengo. desce. para o pescoco. permanece. bem quietinho. até você. acalmar. adormecer.
dezembro 06, 2004
[ Por Todos os Lados ]
"Se ela nos dirigir a palavra, não respondamos. Assim seguirá adiante." (A santa cortesã, Oscar Wilde)
Onde foi que eu li que "a incerteza é a essência da paixão"? Ou seria "a incerteza é a essência do amor"? Acho que foi numa peça de Oscar Wilde. Ou não. Essa incerteza está me matando, é o que sei. Eu me anulei completamente nessa incerteza. Não sei mais o que é real ou em que acreditar. Isso nunca se sabe, é verdade, alguém sabe, é verdade, alguém pensa saber. É verdade? A essência da impaciência, o cheiro da música, a letra da impaciência, me escreva uma letra, me escreva uma carta, me escreva um e-mail, um livro, uma peça, o que é real? Diga-me o que pensa. Não sei mais em quem acreditar. Tudo adquire outros sentidos e as cores vão se acinzentando.
Termino o dia na tristeza e inicio a noite na aspereza da espera da angústia. Le soir. La nuit. A madrugada, longe, perto, os gatos, longe, perto, ao lado, quase ao lado, a madrugada mora quase ao lado, o gato sobe no telhado da vizinha, e eu observando da varanda, estou perdendo a certeza das frases ouvidas. Você diz uma coisa, entendo outra, não entendo o que eu digo. "Um a boca que perdeu a lembrança do riso, olhos cegos de tanto chorar (.)" (O leque, Oscar Wilde) E as cores vão se acinzentando, essa incerteza vem me anulando. Incerteza dentro e ao redor do quarto, incerteza nas portas, incerteza nas janelas, incerteza no que se ouve e no que se diz, antes de dizer, incerteza no pensar, e não no sentir, e sim no pensar depois de sentir - foi verdadeiro? Aquele instante foi verdadeiro? Aqueles meses se foram num instante?
Num gesto impensando, numa frase cortante, numa súbita tristeza, num crescente distanciamento, progressivo isolamento, romance. "Você está olhando para mim como se eu fosse um bicho do outro mundo, talvez eu seja mesmo, sabe?" (O leque, Oscar Wilde) Romance entre uma página a ser virada e meu nome. Romance entre atravessar uma esquina e beber um capuccino. Romance entre pegar um avião de Salvador a São Paulo. Romance entre o silêncio e a sua voz, romance entre o lençol e a pele, romance entre a despedida e os dias seguintes, romance entre duas pessoas, entre uma página a ser lembrada e uma frase sublinhada. "A verdadeira essência do romance é a incerteza" (A importância de ser Prudente, Oscar Wilde). Lembrei a frase correta. Não concordo. A verdadeira essência da vida, alguém sabe, alguém pensa saber, alguém pensa que não sabe, outro não pensa, eu penso e eu não sei - não sei o que dizer da palavra romance. Não sei o que dizer de palavra alguma, quando me encontro ao seu lado. As palavras fogem, fujo eu também. Disfarço, hoje não, depois talvez, a verdade é insegurança. Não sei mais em quem acreditar. Escuta-se demais. Conversas por todos os lados. Não sei encontrar a verdade de todos os lados - você sabe?
A Música do Final de Semana: Just Like Honey - Jesus and Mary Chains
A Dor do Final de Semana: Saudade dela.
A Pergunta do Final de Semana: O que você quer de mim?
A Essência do Final de Semana: Ficar na cama com Morpheu e não sair mais dela.
O Cansaço do Final de Semana: Não agüento mais a faculdade.
 [ Recado Direcionado ]
A nave estacionou sob o céu de Salvador nesta tarde. Manifestou-se de forma amiga, e o ET, que se encontrava nela, sugeriu um pacto com a mutante que mora no bairro do Rio Vermelho. Mutante sim, antes ela confundia os seus poderes e a sua maneira de ser. Achava que era ET também. Talvez por isso a amizade entre eles foi instantânea. Sem lasers. Sem poderes pára-normais. Eles se completam na forma de ver o mundo. Ele de maneira futurista, ela de maneira antiquada e em preto e branco. Só há uma coisa em comum: os dois esperam por finais felizes.
dezembro 02, 2004
[ Escrever ]
Escrevo pouco porque já não acho que você se importe. Escrevo pouco porque sou menos forte do que no passado. Escrevo pouco porque a simplicidade se espalhou feito mercúrio antigo em ferimentos superficiais e em ferimentos profundos. Escrevo pouco porque amo menos ainda. Escrevo pouco porque abraço sem jeito. Escrevo pouco porque sei rir da fácil miséria dos amigos que ainda não descobriram a facilidade de escrever pouco. Escrevo pouco porque os olhos já não se importam em descobrir. Escrevo pouco porque não quero mais sentir presença de inspiração. Escrevo pouco porque outras atividades são melhores do que olhar infinitamente para a janela e aranhas no teto. Escrevo pouco porque deixo os manuscritos se rasgarem antes que eles cheguem em você, antes que eles cheguem em mim.
Escrevo pouco porque agora as palavras perderam a medida e caíram pelo ralo das soluções fáceis e dos quatro hi-fi’s marcados em largos cartões de consumação mínima e risadas repetidas. Escrevo pouco porque não tenho medo de morrer. Escrevo pouco porque o sentido só acontece na fuga. Escrevo pouco porque os pneus não resistem. Escrevo pouco porque as pontes se deslocam sobre os carros e os carros me puxam para fora daqui. E fora daqui paro. E parando peço papel e caneta que não chegam a tempo. E então desenho letras na grama enquanto vejo o céu muito branco e por um instante penso que estou sonhando, mas estou só escrevendo pouco pela última vez.
Soundtrack - Lost in Translation - Air
outubro 20, 2004
[ Duas Mãos ]
A chama da vela se apaga
Quando eu encosto a ponta dos dedos
Depois aproximo os braços da mesa
De fora para dentro
Desta casa. Desta cabeça.
Explodem pensamentos loucos
Dispersos pelas poesias de um mago
Ele atiça os elétrons
Provoca o meu cérebro
E me destrói em pedaços.
Não há por perto quem possa
Me acolher, me levar
Nem aquele objeto não-identificado
Nem aquele amor não-identificado
Nem aquela dor identificada e gigantesca
Ninguém assina o que se passa ou o que se escuta
Pelas paredes e pelas mobílias
Dos cômodos internos perdidos da casa em mim.
Todo mundo acha que vai viver eternamente a sua vida
Com pleno controle das situações e dos problemas.
Limpando e cuidando do seu próprio jardim.
Mas muitos se esquecem que as trovoadas e os terremotos
Não acontecem por acaso.
Basta que eu bata...
Sutilmente...
As minhas asas.
Poesia-resposta a que eu li no blog do Zen.
Num daqueles dias que você está mais para comentar em versos do que em prosa...
agosto 26, 2004
[ Precisa Ser Dita ]
Entrei na névoa branca. Perdida. Perdida entre tempo e espaço. Até ver uma porta. Abro. Um quarto sem móveis, prateleiras vazias. Livros no chão, e bonecas. Três babuskas, barbies, todas elas. No chão. Uma das babuskas me chama a atenção, brinco com ela. Abrindo, abrindo, abrindo, fechando, fechando, fechando as duas. Pareço evitar a última, não sei por quê. E abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, abrindo - dentro desta, a última. Os pedaços da última. Fecho, fecho, fecho, fecho. Fecho os olhos. A escuridão toma conta. Ouço vozes, sigo na direção.
Estou parada na calçada. Entro no ônibus. Fico olhando a paisagem. Verde, verde, branca, azul. Não olho os prédios, não vejo pessoas, não conheço as ruas. Ele fala ao meu lado. A voz dele é verde, verde, branca, azul. A música dele é verde, verde-água, algodão doce, café com chocolate. Algumas vezes, café com conhaque e chantilly, e bolo com cobertura de chocolate. Uma fatia de bolo com creme de baunilha. Tudo que eu já imaginei sentir antes, sabe? As canções dele sempre são doces.
Entro novamente no quarto. Não quero os móveis, os livros organizados na estante, as bonecas na cadeira, não quero. Não quero a mesa, a cama, o
colchão, os armários. Quero esse quarto assim como está. Uma bagunça. O caos em perfeita ordem. Outra babuska me chama a atenção. Sento no chão e vou
abrindo até a última - estaria quebrada essa também? Não. Ainda não. Inspiro tentando abrir o corpo como o dela. Mantenho o ar preso o máximo que posso. Então solto lentamente. Contraio o abdômen depois da expiração e permaneço assim até ficar roxa. Igual a minha camisa favorita.
Volto a calçada. Entro no ônibus. Fico ouvindo a rua, os barulhos, as conversas, as pessoas. Percebo uma menina lendo. O rosto dela é pálido, uma boneca pálida, uma boneca lendo - o quê? O meu passado. Uma boneca lendo o meu passado. Meu presente. Uma boneca colorindo meu presente. Escrevendo. Meu presente escrevendo tudo que eu já disse antes, sabe?
Entro. O computador desligado. Folhas de papel pelo chão do quarto. Uma babuska ao lado do teclado. Essa eu não abro. Estaria quebrada? Ainda não foi escrito. Aqueles dias. Aquele vazio quando você não está. Aquele soco. Aquela frase que é um soco. Aquele ato que é uma frase. Aquela frase que é um soco. E como dói falar. Tão bom, mas dói. Tão simples, mas precisa ser dita. Sabe? Eu te amo.
A emoção é negra como a razão é... você.
Em repeat no winamp: Hoobastank – The Reason. Graças a Doris e a série Friends. Arf.
julho 27, 2004
[ Sentido ]
...às vezes pensamos, vivemos e nos frustramos em dias que parecem não ter fim... e nos decepcionamos com a nossa casa, a nossa raça, com o nosso sangue... e então temos vontade de desistir de tudo por pura falta de esperança naquilo em que um dia acreditamos... aí, ao olhar em volta, percebemos que existe algo belo no meio da selva, um ser que insiste em ser belo em meio a negra realidade...e a beleza desse ser dá alento, e impede a desistência, e devolve a coragem, e faz todo esse monte de minutos sem nexo valerem à pena, fazerem algum sentido...
julho 13, 2004
[ É isso ]
Noventa e nove porcento da população respira oxigênio.
Eu respiro canções.
junho 29, 2004
[ Sorvendo o Prazer das Palavras ]
Pela janela olho esta manhã dourada que se derrama sobre o dia e tenta inutilmente descongelar a paisagem. Encontro o rio.Ou será lago ? Fico com rio que prevalece porque nasceu do coração, como quando dizemos: eu te amo .
E ele é, hoje, uma mancha marrom e cheira a canela e chocolate e fumega, liquefaz-se, lambe guloso a orla da cidade e o horizonte que se perde do outro lado.
Aqui te encontro. Embora eu te desconheça e não me reconheces. Excito-me na febril visão de águas e neblina e de tua presença ausente emergindo das palavras ébrias, obscenas que me deste a beber e que agora, loucas, borbulham, me ardem nos ouvidos, embriagam minha alma, arrepiam meus pêlos.
Libertinas, transformam em vulcões ardentes os meus seios, explodindo em desejos de ser tocada, fecundada pelo rio, pelo frio, pelo vento.
Despertam anseios de mãos errantes traçando caminhos, escalando cumes, repousando em vales.
Úmido, meu ventre se acende na língua de fogo do verso zinabre que avança e exala um aroma de musgos. Em brasa, o corpo se retesa em arco e crispando-se, as pernas entreabrem entregando-se à lancetada pungente da poesia do estranho.
Sorvendo a última sílaba, grita um grito mudo de prazer e goza, indecorosa.
junho 13, 2004
[ Ao Santo Casamenteiro ]
Oh santo dai-me forças para esquecer cada flor que roubo dos teus jardins nos bancos dos coletivos. Incentivos que servem aos subúrbios distantes onde habitam meus hábitos e meus desejos. Dai-me alimentos, sustentos e poucos sustos que de muitos já estou cheia. Fazei-me forte e disposta, me subtraia os desgostos que se desenham nas tempestades por trás dos montes. Dai-me serenidade nas frontes de batalha, livrai-me da mortalha e dos beijos sem sabor. Dai-me um grito de sorte, um sorriso de morte, alguma coisa sem cor. Algum algo, algum amor.
Oh grande amigo de horas tristes rabisca do teu caderno meu telefone e me liga quando eu estiver acordada. Mantém-me sedada e feliz, leva-me pra longe da matriz do meu choro, ensina-me outro nome pra agouro, pra casa não voltes com desaforo. Se me permites te digo: três tigres prum prato de trigo. Matei todos sem muito esforço, para que apareça mais um eu torço - quero ver até onde agüenta, quero ver quantas vezes mais ele me tenta, o chifrudo. Quero ver se tem nervo e audácia, se não é tudo falácia, mal-cheiro, falta de ter o que fazer. Tem-se comigo muito tempo pra perder.
Oh querido, trinta e cinco são meus nomes, não me compres pelo que valho nem encontres comparações. Seu mês de junho é o meu mês também, somos como rosas nascidas no inverno, gostamos de chuva e de frio. Ouve o conselho do teu tio, vai lá e marca o gol, esquece das casas de maio, esquece dos dias com sol. Olha aquela nuvem lá parada, faz uns três dias que não se mexe: acho que vai chover. Olha aquele cachorro na prateleira, é verde e sanfona, nos vê desconfiado e tem dois pregos na parede. Faça o que eu digo e não ouça mais ninguém, quebre os seus discos do Engenheiros do Hawaii e vá pra Sananduva, não se atreva a tomar Fanta Uva, especialmente com cachaça. Não ouça o que eu digo - faça.
Oh santo dai-me olhos de aço e pele de seda, falai-me sílabas tônicas sussurradas em ouvidos. Sujai-me de salivas, suores e abraços intermináveis. Matai-me batidas cardíacas a mais de cem e chuvas finas nos cabelos e mais nada. Contai meus passos nas escadas, evitai minhas vontades de elevador. Deixai meu verbo bem flexionado sem a ajuda de um professor.
E eu te pergunto onde está a resposta? Nos olhos do santo, com o mesmo nome da pessoa que me gerou.
Post inspirado na Trezena de Santo Antônio, santo que minha avó é devota.
Hoje, dia 13 de junho de 2004, dia de Santo Antônio, meus avós completam 53 anos de casados (Bodas de Ouro).
 [ Parabéns Direcionado I ]
Muitas felicidades para você, meu passado, que foi muito importante na minha vida e que me serviu de inspiração para criar o Sin To Win.
 [ Parabéns Direcionado II ]
Ninha, muitas felicidades, muito amor, muitos projetos realizados (com ou sem Autocad) e muitos muitos banhos de chuva com essa sua amiga no cantinho do paraíso. Te adoro. Obs.: As fotos do show de Flávio Venturini estão na seção de Fotos deste blog.
abril 21, 2004
[ Aos Pedaços ]
"Na encruzilhada vi-me reunido, restituído ao corpo que previra despedido na bifurcada ausência da estrada sem regresso..." - Helder Macedo.
 By Picasso. O gato de Alice parou de sorrir. De trás para frente, saí do espelho. Fragmentos do que me tornei espalharam-se pelo chão encerado.
Tive consciência do que ocorria, mesmo me observando dividida em centenas de partes que tentavam se encontrar.
Virei eu mesmo um quebra-cabeça. A cabeça quebrada, quebrando, matutando: como me reconstituir?
Uma das pecinhas pulava, velozmente, talvez a que abrigasse as matérias daquele órgão musculoso que coordena a distribuição do sangue pelo corpo. Aquele que anatomicamente é tão feio que foi criado um símbolo gráfico inconfundível para melhor representá-lo, seja aqui ou na China, é sempre coração.
A pecinha pulava, mas eu não sabia o motivo, talvez como um peixe quando se dá por conta que está fora da água.
Também poderia ser a que armazenava o cérebro, você sabe, as pecinhas são quase todas iguais, não têm cor nem cheiro, são como mini-lascas de vidro. Se fosse a do cérebro, talvez sentisse falta da desarmonia do todo, da falta de nexo. É o desespero de ver desconectado o que deu tanto trabalho para reunir. Anos de leituras e vivências e experiências reduzidos a um esparramar de lascas de um mal imitado espelho.
Ah, mas talvez também fosse a da boca, e dos órgãos múltiplos que se reúnem para que a fala ocorra. Pulava por força do hábito, cada pulo era a tentativa de mostrar-se presente, dizer um "ei, eu estou aqui" mesmo que silencioso.
E foi desesperador quando a pecinha começou a pular mais devagar. E mais, e mais, até dar saltinhos esporádicos, medrosos, sem esforço. E veio a falência de alguma coisa em que se acreditava viva.
Tudo agora está parado. Imóvel. Nada mais pula, nem pulsa. As lascas podem cortar o pé de quem por aqui passar, a doce vingança dos partidos contra os inteiros.
E os inteiros chegam, observam com medo aquela trilha perigosa, a dizerem querem o meu sangue? Dão pulos longos, alguns escorregam na hora de voltar ao chão. Um deslize e pronto: eles também caem, eles também quebram, e as partes dos outros começam a se misturar com as minhas.
Já são tantos que se partiram que eu nem sei mais onde estou por inteira. Desculpa, não estou por inteira, estou em pedaços, já disse, mas não sei onde estão os pedaços que me fariam outra vez inteira.
Mas é assim mesmo, diz aquele outro ali despedaçado. Quando a gente sair daqui, cada um vai levar um pouco do outro.
Metáfora e filosofia barata, quis berrar, mas sem voz me calei, já que nem sorrir podia.Mas acreditar sim. Acreditei e pensei na hora exata em que as partes iriam se reunir, muitas minhas e algumas dos outros, agrupando-se outra vez.
Outra vez inteira, mesmo que pra sempre remendada.
 Flaming Lips - All We Have is Now.
abril 20, 2004
[ A Construção é que me Faz Despertar ]
Já se foram os dias em que acordava com alguma música decente no rádio-relógio, com a mãe chamando ou o trim do telefone. Agora é o barulho das britadeiras que me faz levantar da cama.
Mesmo o meu quarto sendo o último, e portanto, o mais afastado da obra. Agora, nem me importo. Quero apenas que a porra deste prédio fique pronto de uma vez. Que acabe logo com essa vista para a outra avenida. E não é porque assim vou poder dormir melhor. É porque, às vezes, fico ali na janela e vejo os casais visitando o local, como se estivessem fiscalizando a compra. É interessante observar como as pessoas exercitam as suas fantasias em meio a uma estrutura de concreto cinza e vazia..
Então, penso que queria ser uma delas.
Queria ter coragem de poder planejar uma vida a dois, de tomar vergonha na cara e fazer uma poupança para comprar uma casa própria. Um lar, quem sabe. Um lar para mim, para Charada, para alguém que eu venha a amar. Porque eu não sei se um dia já admiti isso... Mas não há despertador melhor do que acordar com a perna do ser amado se enroscando na sua perna pela manhã.
abril 01, 2004
[ O Mundo Lá Fora ]
Tenho pensado em toda essa coisa de redenção, de rise and fall, de eterno retorno. O grande problema, a maior das questões, é descobrirmos exatamente onde estamos, em que ponto do traçado circular, para depois, com a maior simplicidade, adivinharmos o que vem a seguir.
Creio eu que estejamos no auge insuportável de uma esfera. A milímetros de cair. Prognóstico nada bom, especialmente porque nos julgamos tão maravilhosos. O mais irritante é que não vemos além dos nossos narizes: há um mundo lá fora, cheio de criações belas que funcionam além e apesar de nós pessoinhas. Fico espantada quando paro para prestar atenção no mecanismo das coisas e percebo, arrasada, que deveria ter virado bióloga em vez de analista.
Não existe nada mais incrível do que saber que depois da noite, com toda certeza, virá o dia. E que, com o alvorecer, virão os pássaros. Os animais noturnos adormecerão, os diurnos começarão a viver novamente e o Tempo se escoará sem piedade para o fundo dos nossos relógios. Sempre o mesmo; o mundo não muda, somos nós que mudamos o mundo, e para pior.
março 29, 2004
[ Entenda Se Quiser ]
Eu cansei de brigar com o mundo por causa de ciúmes, por causa da minha possessividade em relação a tudo. Cansei de soltar beijos para o ar e ninguém pegá-los. Prefiro que você mesmo defina o seu destino e o que você quer dentro do seu coração. Não vou mais lhe dizer nada sobre essa sua fome de lobo e sobre esse seu instinto de se atirar para todas as sombras femininas ao alcance da sua visão.
 [ Recado Direcionado ]
Dormi pensando em você. Acordei com a sensação como se estivesse numa casa no meio do mato.
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