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agosto 16, 2005
[ Robô II ]
Número 4270 chora sentada sobre os anéis de Saturno. As suas engrenagens ardem e emitem ruídos estridentes a cada movimento. Um rastro de fogo por entre as estrelas e logo Número 7111 está ao seu lado. "Robôs não foram programados pra chorar, sabia?", diz ele com uma voz suave. Há três dias conseguiu que o seu sistema de comunicações emulasse a voz de James Dean. Era o que faltava para que tivesse coragem suficiente para se aproximar 4270. "Eu sou uma estúpida, 7111", soluça ela, "bem que me avisaram pra não instalar o software dos contos de fadas e das galáxias cor-de-rosa, mas não, tenho que ser assim teimosa, e, droga, acreditei que fosse encontrar o meu robô encantado e que eu não me sentiria mais só nesse gigantesco universo". 7111 sente uma vontade súbita de fazer qualquer coisa para ver 4270 utilizar o seu mecanismo de sorrir. Iria fazer companhia para 4270 como ela queria. "Sabe, às vezes as minhas memórias me consomem, mal consigo descansar os meus circuitos a noite, ainda mais depois de tantos projetos de existência em que eu já passei", ela continua, "e o pior é que, mesmo depois de ter reiniciado o meu computador interno, não posso e não quero apagar meu disco rígido, sinto dor, estou ficando louca de tanto chorar". Comovido, 7111 abraça o corpo dourado de 4270. Devagar, engata os dedos nos botões de suas costas. De repente, ambos trocam informações em silêncio. São apenas códigos e senhas e scripts que dizem "não chore mais, porque se é louca, a sua loucura desejo, porque a sua loucura expulsa a minha e faz de minha mente a sua sala de jogos, com castelos, cavalos, flores, lua, lagos e dragões". Mas as lágrimas de 4270 não cessam. E, nos braços de 7111, aos poucos ela perde todos os seus dados. Não há mais nada a fazer. Desolado, 7111, também deseja chorar. Mas respira fundo ao lembrar que ainda não produziram um programa mais eficiente contra a ferrugem.
agosto 15, 2005
[ Robô ]
The Test Begins.... NOW.
Eu pensava que era apenas mais um pedaço de código perdido. Um módulo mal compilado fazendo parte de um grande sistema. Um ser virtual vagando por correntes elétricas e interpretado da maneira que alguém quisesse. Eu pensava que os botões-sentidos na minha estrutura poderiam controlar o que eu apelidava de sentimentos (nada mais que rotinas incompreensíveis para mim). Então me informaram que havia algo de errado na minha estrutura. Eu era incontrolável, sentimental(?) e burra demais para ser um programa, eu interagia demais com os demais códigos espalhados em alguns momentos, e em outros eu era excessivamente virtual para ser um robô.
Denominaram-me “humana”, não uma garota, uma mulher. Porque havia em minhas memórias passagens demais, lições demais, dores demais. A doçura e a inocência praticamente haviam sido deletadas. Eu não sei como e onde a vida começou, em vários momentos imaginei que fosse o fim.
Tenho seguido vagando dentro da matriz em busca do improvável, de novas corrrentes, da soma de vetores diferentes, de novos comandos até o teste terminar ou ser cancelado.
Até aparecer na tela: The Test is OVER... NOW.
agosto 11, 2005
[ Sonho ]
Sonhei que havia alguém sonhando comigo, e neste sonho eu sonhava que havia alguém sonhando comigo, e neste outro sonho eu também sonhava.
julho 04, 2005
[ Piche - Escuro - Esconde ]
Eu trançava meu cabelo para que você não fosse engolido. Eu tinha medo de que meu cabelo escuro se soltasse enquanto eu estava debruçada sobre o asfalto preto e a rua crescesse que nem um jasmim-estrela ou unha-de-gato e chegasse à minha cabeça. Minha cabeça engoliria você sem mastigar. Como uma boca engole refrigerante. Acho que eu só pensava poesias. Tardezinha, eu batia palmas em frente à sua casa, esperava você aparecer e verificava com as pontas dos dedos se a fita laranja que prendia a trança estava bem firme. Quando você vinha comigo, agachava-se ao meu lado, vigiando a caixa de giz, e olhava para os dois lados da rua, olhando atento o fluxo dos carros tão grandes e barulhentos, guardando a caixa e guardando a poesia riscada de azul, de rosa, de amarelo, você era meu melhor amigo. Melhor que meu melhor verso. Que os carros não atropelassem a rima, nem a caixa de cores. Pensei que era a lua, era o seu azul iluminando a rua, eu escrevi, e olhava pra você que virava os olhos de lá pra cá, guardando a caixa, a poesia e a mim, admirava seus dedos brincando com o giz, riscando palavras sobre a calçada e o asfalto preto que chegava até a minha cabeça. Você nunca dizia nada. E eu ria da sua caligrafia que fingia ser serpentina de baile de carnaval, imaginando confetes chovendo de pouquinho. E quando pensei que fosse a lua, era o brilho da minha boca na sua, eu li, no dia seguinte, manhãzinha de ir pra escola, em letras azuis. Tive certeza de que se eu voltasse a bater palmas em frente à sua casa, você não viria mais, e alguém que eu não conhecia diria "menina, ele não mora mais aqui". Porque minha cabeça, eu pensei, minha cabeça tinha finalmente engolido você.
junho 04, 2005
[ Dona ]
Sinto-me dona de filmes. São meus, os delirantes. Os preferidos. Possuo os livros que leio, os livros das palavras escondidas. Das palavras inventadas. Meus olhos engolem imagens pelo todo. Depois, parte por parte. Sons entram pelos meus ouvidos e ficam presos nos meus sentidos. São todos meus. Decifro a linguagem misteriosa da lança/arte que atravessa as almas escolhidas. Tenho a alma atravessada. E parto para o paralelo das coisas humanas inexplicáveis. Participo do mistério do homem. E da mulher.
maio 25, 2005
[ Vulcão e Pétalas ]
Aquela era a primeira vez que se encontravam para ficar sozinhos. Já não podiam mais agüentar o desejo que sentiam um pelo outro. A cada toque de suas carnes, a eletricidade entre seus corpos crescia assustadoramente. Não podiam mais se conter. Foram para a casa dela. Era um lugar aconchegante e sensual. As cores do quarto exalavam calor e um toque de libido contida. Ele olhava para a boca carnuda da mulher e sentia-a fundir-se na cor avermelhada das paredes. E em cada toque dos lábios dela, era como se a casa inteira quisesse sugá-lo, incorporando-o à umidade de suas tonalidades vibrantes.
Sentiu os dedos da mulher descobrindo seu corpo. Teve um arrepio e apertou-a contra si. Seu sexo havia se intumescido bruscamente, inescrupulosamente. Usou as mãos e sentiu que o sexo dela também havia despertado. Um riacho fervente de caos e volúpia espalhava-se entre as pernas da mulher. Espalhou-se pelo quarto o cheiro acre daquela que seria a explosão do êxtase. Ele havia fechado os olhos para tocar-lhe o seio, enquanto a língua dela roçava a borda de sua orelha causando-lhe um delicioso desconforto.
Rasgou-lhe a blusa totalmente em transe. Ela gemeu um creme de prazer. Seus mamilos cresceram e tornaram-se minerais. Viu as mãos dela tornando-se garras. Da mesma maneira como havia lhe rasgado a blusa, viu sua camisa também arrancada, mas com ainda mais ira. E com as mesmas garras de rapina abriu-lhe fendas nas costas. Havia sido marcado pela insanidade daquela mulher de quem nunca imaginou que por trás da franja comprida e do olhar misterioso poderia ser capaz de tais coisas.
Ela o jogou na cama, despojando-o de tudo o que estava logo abaixo da linha do Equador do seu corpo. Logo ela vislumbrou a vida que se erguia entre as pernas dele e tomou-a entre as mãos, num gesto bivalente. Tocou-o com carícia, e a medida em que aquilo que tinha entre as duas extremidades de seus tentáculos tornava-se líquido aumentava a violência dos movimentos, fazendo com que o homem se retorcesse num híbrido de medo e delírio.
Seus lábios agora haviam se transmutado. A alquimia era constante e do vermelho magnético dos lábios dela surgia um tecido macio e cálido. Havia pétalas canibais que cobriam já tudo que se erguia do corpo dele. Era como se um vulcão em atividade fosse subjugado ao poder inexorável de um cataclismo de flores escarlates, paralisando tudo abaixo de si, mas mantendo a pulsação energética do subsolo.
Já não havia mais homem... não havia mais nada. Apenas sensações. Quando o vulcão começou a dar sinais de explosão, ela rapidamente o tirou da boca quente... e disse “Só quando eu me apaixono é que me permito saborear a lava”.
The Doors - Light My Fire.
maio 20, 2005
[ Verde e Azul ]
Tentei fugir do assunto. Mas o assunto grudava nas paredes tanto quanto a energia e o frio escorriam pelo corpo. Estava muito tensa. Tentei tomar uma atitude. Radicalizar de vez o que se passava na minha mente perturbada. Mas o coração parecia ter parado de bombear sangue para o resto do corpo. O ar havia se tornado irrespirável tanto quanto eu não conseguia imaginar o seu olhar. Então eu tentei entrar na questão. Mas as formas fugiam de mim tanto quanto a essência me escapava. Você me escapava. Eu não conseguia me relacionar com seus medos. Medo de mim. Medo das minhas palavras. Medo das minhas loucuras. Medo dos meus medos. Tenho medo de ficar sozinha no escuro, assim, sem entender mais nada.
Medo de não ser abraçada quando sinto medo. Tenho medo do mar e da areia e das pedras. Tenho medo sobretudo das pessoas sobre a areia. Uma praia fechada. Eu e você e o mar e a areia. E as palavras e as pedras e as conchas. Somos duas ostras. Ostras vestindo pérolas e dizendo que são comuns. O que eu estou tecendo? Como você me vê? O que eu estou tecendo quando me deito sobre você?
Tentei fugir do assunto. Uma relação fechada. Quando foi que eu tentei? Relações abertas. Quando foi que eu me abri e me despi dos medos todos? Onde foi que eu coloquei tudo que eu sentia? Um pouquinho aqui, outro tanto ali, mais da metade acolá, tudo dentro de mim. É preciso retirar-se. Dar-se. Dar-se ou retirar-se?
Eu preciso me abandonar aos sentimentos ou te abandonar de vez? Escrever ou calar? Tentei me esconder. Mas me atraía tanto quanto o prazer é verde e o amor é azul e o mar é verde e azul com sombras rosáceas e lilases de caule branco.
"Sentiu-se um pouco chateado de estar tão feliz por encontrá-la de novo: na verdade, só havia abandonado Margot porque tivera medo de ficar apegado demais a ela." (Riso no escuro, Nabokov)
março 31, 2005
[ Caixinha de Silêncio ]
É só porque havia em ti uma caixinha de silêncio. E eu a imaginava envelhecida, de um mofo que impõe respeito e mágica. Toda vez que eu a abria, escutava canção nenhuma e, dessa forma, dançava inquieta em teus braços. Sei da ilusão dos instrumentos. Da solidão da voz. Da falta contida em tantas músicas. Mas tudo isso aquela caixinha supria. Ao abrí-la, a quantidade de delicadeza impregnada em meus dedos entregava a preciosidade jamais pronunciada. Ao abrí-la, nem meus olhos falavam. O silêncio guardado ali; sempre pronto a preencher nossos vazios. Como nos dias em que tocavas Chopin e todas as teclas querendo ser meu corpo.
janeiro 17, 2005
[ Nada ]
A menina dança enquanto meus dedos suam. Saem flores das pontas dos meus dedos quando eu aponto para ela e ela nem percebe. Borboletas me rodeiam, eu ouço suas asas batendo levemente, eu queria voar também, eu queria brotar em pétalas macias e exalar o perfume secreto das orquídeas. Queria ser beijada pelas borboletas. A menina dança e sua saia ventaneia ares e ventos e desejos de pássaros brancos perto do mar. Ondas do mar diluídas no vento, maresias flutuantes que viram pó de sal e areia e óleo de bronzear. Na minha lembrança, as mãos escorregam óleo no relevo do menino, em sua barriga bonita, em seu sexo. Sexo fresco feito anjo sem asa. Sexo bom de saborear. A língua que lambe é a mesma que fala e ele murmurava palavras compridas e cheias de sons que me davam sono e que não me diziam nada. Lembranças. A menina dança e eu olho. Nada mais que eu possa fazer. Nada mais o que dizer. Nada.
janeiro 07, 2005
[ Vinho essa Noite ]
Depois do vinho
Quero o desejo,
o toque, o cheiro,
o beijo, o prazer
E o sono da noite a galope.
Depois do vinho,
Estarei sozinha.
No quarto sentada,
emburrada, com a cara melada
de farinha de trigo.
Nada a perder,
Exceto um bolo de chocolate no forno
e um sonho torpe na janela.
Sinto a letargia.
Trazendo os delírios
Que afastam minha dor,
minha solidão pela rua afora.
Sem minha dor,
Em volta tudo é poesia.
Sou uma semeadora
Em campo de lírios
e em quintais banhados pelo luar.
Um perfume inebriante
desprende-se dos cabelos
enquanto giro e danço
E surge o mensageiro do vinho.
Mostra algo adiante.
Num caminhar hesitante,
Pois difícil é o caminho,
Chego ao mar de sangue.
Nas ondas revoltas, redemoinho
Lá se vai o monstro marinho
Rumo ao vazio abissal
Oculto,
No fundo da taça de cristal.
Risos. O Zenzito já crio uma versão econômica para a minha poesia no blog dele.
dezembro 21, 2004
[ Quero Pagar Minha Dívida ]
é preciso
escalar paredes
preciso contar os caquitos
do chão
cristais
é preciso não esfregar
as mãos
quando te cruzo com os
olhos (meus faróis)
preciso é te violentar
delícia de língua
que esconde
que não revela
os dentes
que é preciso morder
preciso saber
outubro 20, 2004
[ Fragmentos. Trechos. Escudo ]
Quando a "aurora de dedos de rosa" surgir amanhã, matutina, espero estar disposta a ler mais alguns versos de Homero, que tanto me torturam, mas que tanto me comovem quando estou nos meus dias de deusa. Espero estar amanhã endeusada por algum instante risonho que me faça esquecer o vazio da existência, os meus problemas estourados ao máximo dentro da consciência. Alimento os meus dias com sabor de frango e cheiro de frutas, o éter só dá um toque tristonho durante o final da manhã e da tarde. As premonições que saem por nossas bocas têm causado reboliços em toda parte. Quando eu te falo que desde aquela tarde eu amo mais o meu passado, pelo simples fato de vê-lo o tempo todo retornar. Componho-me com fragmentos de discursos alheios e me atrevo a catar coquinhos homéricos para decorar as minhas entranhas. Desde muito tempo prego a filosofia da leveza em todas as paredes da minha casa. Talvez se eu não a pregasse, as paredes nuas, brancas, pudessem me descarregar. Estejam certos, porém, que cada vez menos farei isso. Quero me despir de sobre-tudos, de mantos que me tornam invisíveis, que apagam meu viver nos bordados mais elaborados, porque a verdade é que nada está podendo me vestir. Há um emaranhado de fios sobre meu corpo e eu tento escolher os mais claros para tricotar meu escudo.
agosto 29, 2004
[ Ânsia ]
Por certo foi engano. Seria esta a sua vontade? Você, de outra, não meu. Mas não, acho que não. Foi certa a vontade toda, minha. Minha fome imensa de você. E você na minha frente aos pedaços. Oferta. Bandeja. E eu lhe recebi em minha boca e mastiguei você inteiro, inteira, com força. Era toda eu: boca e dentes. Devorei você, senti seus sabores e mais. Salivei. Escorri saliva pelo canto da boca e me fartei do seu gosto, de seu cheiro, de suas entranhas. Seus sabores mais escondidos. Seus sabores secretos. Lambi cada pedaço seu. Triturei cada parte. Misturei você aos meus fluídos. Engoli você, sôfrega, ávida.
E aí que meu próprio corpo não agüentou. Rebelou-se, foi contra. Expulsou, expurgou. Fez retornar o que tinha feito, em ânsia. Lutei, queria você em mim, trancafiado, misturado. Mas meu corpo é forte, resistiu a mim: meus desejos sobre você. Ele foi o vencedor: vômito. Devolvi inteiro o que devorei em partes: você. Agora não mais em pedaços, refeito em forma: novo. Nova compleição. Nova vontade: de mim.
Agora, você é meu.
agosto 03, 2004
[ Trunfo ]
Eu não jogo.
Se essa é a sua última aposta,
eu passo.
Se você me embaralha,
nos descarto.
julho 06, 2004
[ Strangers When We Meet ]
...tudo começa novamente, e eu mais uma vez livre, livre, voando pelo mundo, uma bolha de sabão pelas curvas do vento, indo anexar-me sabe Deus onde, e sabe Deus com qual finalidade. Indo, apenas; indo para depois descobrir porquê. É como ficar leve, é como perder alguma coisa no meio do caminho e só perceber muito depois, quando não importa mais, quando nada mais interessa, nada do que você carregava até então, foi tudo inútil, tudo sem sentido, não há motivos bons o suficiente para me fazer voltar atrás e recolher do meio da poeira da estrada aquela coisa que eu deixei cair. Então fiquei leve e gostei. Dá medo, mas é bom. Fica sendo bom sentir medo. Fica sendo inevitável vencer o medo, só para provar um pouco mais daquela doce ansiedade, daquele retorcer nas tripas.
[ Tenho Companhia ]
Uma carta de baralho que conversa e brinca comigo.
Uma esperança que dorme ao meu lado.
[ Diálogo entre o Balão e a Garota Ruim ]
GR – Cai cai balão, cai cai balão... aqui na minha mão.
B – Lembro da letra, mas não lembro da melodia.
GR – :o(
GR – Não é possível que você não lembre! risos
B – Cai cai ligação. Cai cai ligação... aqui ontem... mas eu não desisto não.
GR – Acho que eu lembro porque eu nunca cresci. :/
GR – Será que isso é ruim? Ou dá dor de barriga?
B – Risos... Não, não é ruim. Ruim seria não ser criança de vez em quando. Toda criança sente dor de barriga.
GR – Só que eu sou criança o tempo todo, e não sinto dor de barriga no momento... Ah é... Sinto... Só que o nome disso agora é cólica menstrual. Risos.
B – Bem... Os adultos colocam nomes difíceis para coisas simples que acontecem com a gente. As crianças não, elas dizem e pronto.
GR – :/
B – Mas você acha ruim ser criança o tempo todo?
GR – Sim, claro... Falo tudo o que eu penso. Sempre. Sem enrolar.
GR – E é nisso que dá: uma hora eu vou crescer e ficar pra titia.
maio 19, 2004
[ Entender de Anjos ]
Agora eu sei desse lugar, que sabe toda nossa história. Saí de madrugada a vagar pela cidade. O sono não vinha. Uma madrugada quase eterna. Passeio pelas mesmas ruas que passeava contigo há um tempo atrás. Aquelas ruas tortuosas pareciam querer me engolir. Eu a via machucada e as casas chorando tua partida.
Similares histórias poderiam ter passeado numa tarde de outono ali, mas nenhuma igual.
Alguns prédios deixavam escapar um feixe de luz que me cegava. Das sacadas voavam papéis, alguma historia desconhecida. Roupas caiam ainda cálidas do calor humano. Alguém acabara um amor. Os berros faziam eco naquela rua vazia e algumas casas acordaram com a estrondosa discussão. Eu esperava.
Alguém saíra ferido. Ferido na alma. Chorava pesadas lágrimas, daquelas que sufocam a garganta e ficam presas, teimosas a caírem. Mas o choro desaguou soluçado, como de uma criança que não quer ficar longe da mãe. Chorava perdão.
Alguém descia a escada do prédio. Algumas malas caíam vertiginosamente, peças de roupa acompanhadas de insultos. Era a abertura de uma chaga, eu bem sabia. Parecia reviver o que passei, mas encarnada em outro ser. As lágrimas caíam e pude ouvi-las dissipando-se ao beijarem o chão. Sentada no meio fio do lado oposto da rua, o vi sair correndo para ver se ela aparecia ainda na sacada. Desesperado olhou para cima, colocou as mãos sobre a cabeça. O peito dele estava secando, a sua alma quase em partida. Ela ainda gritava.
Juntou tímido toda a bagunça da rua. Olhou para a janela, pode ver a penumbra que desenhava o corpo dela. Ela chorava, porque o amava. Ele virou-se e saiu sem rumo, numa noite pálida, de ruas em prantos. Mais um amor se acabou.
Ela via ele sumir sob o céu pesado, a madrugada fria. Até a sombra engolir o seu corpo e ela não pôde mais vê-lo.
Ele ouviu um tiro.
Ela esmaeceu aliviada. Uma lágrima acompanhava o cair de seu corpo, que beijou o leito da rua que chorava a morte do amor.
Cheguei junto ao seu corpo. Fechei os olhos ainda úmidos. A vida partiu do corpo dela.
As minhas asas se abriram em leque. Angelical, pus sua alma em meus braços e deixei seu corpo esfriando sob a luz da Lua. Ele chorava sobre ela. Eu sentia a dor humana. Ele chorou o erro, lamentou e suplicou ser sonho. Uma rasura abstrata da vida.
Ele nunca entenderia os anjos. Eu entendi. Eu morri por amor quando vi que aquele homem que chorava sobre aquele corpo foi o mesmo homem que eu amei.
abril 18, 2004
[ Menina de Vento ]
Era uma menina de vento. Fazia o tempo correr junto com a velocidade da luz ligada na ponta do amplificador das suas caixas sonoras. Destacava-se pelas sensações despertadas através dos seus sopros em tardes de sol. Havia magia em criar seres vivos com o girar de folhas mortas no ar.
Era uma menina de vento. Queria trazer, do sul para o norte, um pouco de baixo e vice-versa. Não queria criar koans, mas modos mais palpáveis de abstrair o sangue de si mesma. O corte e tudo o que dele escorria e o prazer e o desmaiar das nuvens sem desenho sem formato de dizer.
Era uma menina que nada tinha a não ser dizer: o impossível dizer sem forma, como o vento norte ou sul diz o frio ou calor. Mas jamais disse ou fez coisa alguma senão desejar.
"A sombra dos bambus estão varrendo o pó da calçada sem levantar poeira".
março 25, 2004
[ Por Trás do Filme A Paixão de Cristo ]
O mundo está mais careta, mais carola, mais conservador, mais puritano. Depois do movimento libertário que pregava o amor livre, a sexualidade vivida sem amarras e um comportamento mais solto e sem o peso dos compromissos e do controle, vivemos um revés disto tudo. Existem vários motivos. Com certeza, um deles é a exaustão. Hoje pode se ver, ouvir e fazer o que quiser, a qualquer hora, em qualquer lugar. Lembro-me das primeiras revistas mostrando seios e do escândalo que causavam. Agora basta acessar alguns sites e ver mulheres com corpos a mostra e homens musculosos se exibindo de todos os ângulos.
A coisa ficou tão fácil que ficou banal. Não significa mais nenhuma transgressão, nenhuma revolta libertária, nenhum diferencial. Atualmente o diferente é o contrário. É ser fiel, monogâmico, casto. Quem quiser transgredir no comportamento tem que ser careta. Fazer sexo só depois que casar, com a mesma pessoa e pro resto da vida. Ou então se abster de qualquer relação de troca de fluidos. Este movimento pode ser sentido em todos os cantos: nos discursos do presidente Bush, nas propostas apresentadas pelos políticos evangélicos – a religião que mais cresce no Brasil, no comportamento dos muçulmanos e até nos programas populares de TV.
No bojo desta onda de caretice surge o novo filme do Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Na realidade não teria motivo nenhum pra tanta polêmica e atenção. Uma história já por demais conhecida, com final que todos sabem e que já foi contada e recontada centenas de vezes de diversas formas. Estrategicamente o filme é lançado durante a quaresma - período de reflexão para os cristãos. E na onda dos protestos judeus ganha mais notoriedade e, por conseqüência, mais espectadores e mais movimento no caixa.
O diretor buscou recursos para que a história não fosse só uma repetição: falas em aramaico e latim, algumas interpretações particulares do narrado pelos evangelistas e o grau exagerado, e quase insuportável, de violência a que Jesus é submetido. A dor é mostrada com tanta ênfase, ângulos, efeitos durante todo o filme que eu fiquei imaginando se essa produção é algum tipo de sadismo. Na medida que os espectadores olham o sofrimento do filho de Deus se sentem culpados e partícipes na sua dor e, por conseqüência, chamados a um comportamento de reparação (relembrando as aulas de história da arte). O espírito primeiro da quaresma é este: conversão e retorno para Deus. Isto pode ser interpretado de várias formas, mas no discurso careta significa principalmente mudança no comportamento, recato, discrição, sacrifícios, controle. Devo confessar que chorei muito, como não havia chorado em filme algum.
Num discurso parcial e radical na interpretação, é como se quem tivesse um comportamento não convencional ficasse fora do amor de Deus e quem fosse ortodoxo neste específico, já ganhasse a salvação direta. Não por acaso a representação do diabo é feita por uma figura andrógina (pele límpida, sem pelos, olhos claros, longas unhas) como se o diferente encarnasse o mal.
Acho mais preocupante que em nome de um conjunto de crenças, que estão sujeitas a interpretações e localizações dentro da história e da cultura, se queria impor um modelo de comportamento a toda uma sociedade. A blasfêmia, só para ficar num exemplo, é apontada dezenas de vezes nos textos sagrados como um pecado maior. Pode haver pior blasfêmia do que usar de forma distorcida a história do filho de Deus para marketing pessoal e acúmulo de capital, se aproveitando de um período sagrado para os seguidores de Jesus como “isca” para lotar as salas de cinema e criando falsas polêmicas para chamar a atenção?
A história já mostra que depois de um período de liberalidade o revés conservador vem forte. A Alemanha pré-Hitler é um exemplo clássico. De uma vida cultural fervilhante e aberta às diversidades desaguou num período de repressão e de arianismo retrógrado. A liberal Califórnia após o advento da aids sofreu ondas de repressão e conservadorismo culminando com a escolha de um astro de cinema para governador, com discurso moralizante. Até o Rio de Janeiro, terra da pouca roupa e da malevolência, elege evangélicos radicais para serem seus governantes.
Falar do filme de Mel Gibson de forma isolada é não querer ver a obviedade do momento atual: o mundo esta ficando mais careta. A estabilidade está acima da aventura, a moral burguesa adiante de movimentos libertários. Não existe mais lugar para a revolução. Os revolucionários se tornaram burocratas ou pastores. E pensar que há dois mil anos um homem andava pela Galiléia pregando valores novos de tolerância, solidariedade e amor ao próximo. Nos dias de hoje seria considerado um deslocado e censurado para menores de 18 anos.
março 24, 2004
[ A Partir de Agora ]
Sem sombra de dúvida, eu prefiro a luz natural que se desprende de cada intervalo. Pensar é um porre, eu preciso de café forte sem mel. Preciso limpar suas orelhas. Você não escuta o silêncio, o silêncio canta pensamentos que se misturam aos grãos e ao pó e aos favos, café forte sem mel. Eu só preciso esquecer tudo que não existe, e viver. Sem querer o que não existe. Pensar é um porre. Esquecer que não existe, e viver, acreditando que sim, talvez, daqui a poucos. Daqui a poucos dias, sem sombras, incertezas, dias, sombras, quase certezas, pensar é um porre mesmo, me livre de pensar. E me livre de enxergar. E de ouvir também. Também me livre de ler a luz natural que se desprende de cada pergunta.
– Você quer um chá?
– Chá de quê?
– Chá de esquecimento.
– Tem chá de palavras iluminadas?
– Não, só tem chá de escuridão instantânea. Quer?
– Não sei. Tem suco? Suco de algas e cinzas?
– Não. Só de laranja da terra, serve?
– Não. Desse tamanho, não me serve. Falta muito para me preencher.
– O que você quer afinal?
– Descobrir como seguir adiante sobre o que eu quero seria um começo. Quando eu tivesse um fio para o início, eu começaria a me descobrir, a me desenrolar dessas perguntas tolas que se enrolam sobre a minha nudez escondida. Pensar é um porre, você não acha?
– Eu não acho é o caminho dos meus pensamentos. Para onde eles vão? Para onde tem ido, terminam lá? Todos eles acabam ali?
– Eu entendo o que você está dizendo, mas me falta a compreensão das suas palavras. Percebe o que quero dizer?
– Sim, eu percebo, mas me falta o alcance do que não foi dito. Chegou lá?
– Estou te buscando, estou me perdendo, estou me procurando, estou entendendo, estou chapada, estou confusa, estou me afastando, estou te ouvindo. Não te entendo, você quer que eu te entenda?
– Não. Não mesmo, para quê? Para que essa pergunta?
– Qual pergunta?
– Qual foi a pergunta que nós não fizemos?
– Não faça agora, eu vou fazer.
– Não faça agora, eu já respondi. Responde uma coisa...
– O quê?
– Esquece...
– O quê?
– Tudo. Esquece. Esquece tudo a partir de agora, e responde aquela velha pergunta nunca feita por nós antes.
– Eu já respondi.
– Quando?
– Muitas vezes. Quando você não me escutava.
Sem sombra de dúvida, eu prefiro a luz natural que se desprende de cada movimento. A claridade de uma frase. A sombra de um fechar de olhos. O abraço de um trocar-palavras. Eu prefiro o contato natural e úmido entre tudo que existe e não existe em uma lágrima no travesseiro. E o dia amanhecendo com a minha pele amanhecendo.
março 19, 2004
[ Chute no Balde ]
Já estou num certo momento da minha vida que eu não preciso provar mais nada a ninguém. Então quer saber? Vai ver se eu tô lá na esquina distribuindo panfletinhos. :p
março 18, 2004
[ A Dura Arte de Recomeçar ]
Quando a vida te dá uma rasteira, o mais importante é manter a auto-estima e a cabeça erguida. Continuar a luta e voltar a brigar pelo seu lugar ao sol.
Ai ai... preciso dar um jeito em minha vida no próximo mês.
Você tem um emprego pra mim? :o)
Aceito tudo, desde os mais altos cargos até aqueles para servir cafézinhos... Risos.
março 11, 2004
[ Cada um com suas Paixonites Infantis ]
O Sr. Mendoim é muito engraçado. Procura várias maneiras para me deixar de lado e segurar firme e forte o seu maior objeto de desejo. Temos poucos minutos para ficarmos juntos. Mas ele insiste em me ignorar quando a presença de vários grãos preenchem a sua retina preta. Acredito que um dia, assim como aconteceu com as suas outras preferências, ele acabe enjoando desse estimulante e voltando pra mim.
Vivo ignorando o seu olhar blasé. Cada qual com a sua paixonite infantil. Ele com a dele, eu com a minha. Assim seguimos felizes e descansados.
Depois de receber alguns beijos especiais de “boa noite”, a insônia desapareceu por completo. Tenho dormido com anjos nordestinos. Eles embalam o meu sono ao som da zabumba e do baião.
A minha nova paixão está tão ligada a manhã quanto a noite. São os momentos que eu a sinto mais próxima de mim. Essa distância imposta por nós dois incomoda um pouco, mas ainda não é letal. Por enquanto é melhor ficarmos criando novas manhãs e noites. Cada uma de uma cor diferente. Cada uma temperada com uma pitada de saudade.
fevereiro 28, 2004
[ Cheirinho de Casa Nova no Ar... ]
Chegou a hora de arregaçar as mangas e colocar cada coisinha no seu devido lugar. Cada coisa em seu lugar, e o meu amor em cada coisa. ;o)
Ai ai...
Onde eu coloquei o desinfetante?
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