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maio 30, 2005
[ Sós ]
Ela era, sem ele, vazia. Oca. Possuía um abismo interno que cria teias. E sozinha ela seguia, não por falta de opção, porque ela sabia que no fundo, no fundo, ele existia. Em algum lugar. Em algum país. Debaixo do seu nariz. E só, ela não morreria.
E ele? Ele pensava... onde ela estaria. Se ele se adaptaria ao jeito e a cidade dela. Se ainda saberia escutar com carinho as músicas do headphone que ela colocaria. E se ela entenderia o que ele dizia e faria.
E assim, viviam as suas vidas. Nem sabiam que um existia para o outro.
E seguiam. Sós. Com seus lençóis.
Obs.: Post inspirado no poema do Garoto do Gorrinho, que me solicitou a retirada do link de referência ao site dele.
janeiro 28, 2005
[ Perco Eu ou Você? ]
Para dormir eu nos repenso juntos, sozinhos num jardim em plena tarde recente enfeitiçada por duendes e fadas. Sonolentos e deitados sobre a grama, rodeados por flores e joaninhas. É como se eu estivesse debruçada pela janela imaginária do quarto da nossa casa, nos observando. Eu pudesse olhar pra fora e lhe dissesse que o asfalto escaldante sob a janela substituía o infinito azul do mar cuja cintilar ilusionista adornava nossa fantasia. Tracei um vértice no cruzamento entre cada segredo que me foi revelado durante os suspiros fortuitos que te denunciam quando meus dedos resvalam secretamente descendo pela barriga, adentrando por tecidos, verificando sua excitação numa roda onde agracio um amigo oculto. Ainda aguardo suas respostas, de quando lancei as perguntas. Você soube me responder quando existiu a dúvida, e quando o horror ao erro vestiu o vermelho da paixão no negror do próprio erro: e era o susto: verdadeiramente o erro. É um jogo de perguntas e respostas, quem consegue calar o outro vence. Mas uma vitória que não define posições, você vem e me pega por trás como um animal prestíssimo e irrefreável, um varonil de presas não tão agudas, mas fortes e poderosas, sempre apalpando as carnes macias e as outras mais úmidas como a minha boca cheia da sua saliva. O seu apetite por mim totalmente inundado pela minha saliva e sede por você, nessas carnes que me fazem arder e que a todas vou lamber, propulsantes, não lançando à distância, mas segundos depois me incitando a seu instinto de macho inconsolável, me oferecendo, impulsionando e implorando que eu toque aquela carne também, mais profunda, encaixo fundo meu sexo que possui o maior segredo do meu corpo na lança, e o nojo não somente se une à beleza, ele a apura e aperfeiçoa. Gozamos a festividade e a ambivalência. Coisas assim eu penso quando estou deitada inventando tramas que a você envolvam a mim só por mais uma vez.
Bem ali na minha frente eu ia sentindo o coração empalidecer diante do susto de me ver pela primeira vez capaz de ultrapassar os altos muros que continham insuspeitado aquele fraco amor antes pretensamente visto como única vastidão possível, eu não sabia que o amor era uma experiência mortal e que semi-amor não existia, eu simplesmente não podia ter a menor idéia de que amar fosse virar o grande muro do avesso. Odeio ter que conter a histeria que você me provoca. Depois disso tudo, se você bem me entende, sugiro o silêncio, perco eu ou você? A complexidade verte rumores perigosos e inconfidentes, mesmo assim acredito e espero a sua resposta.
julho 05, 2004
[ Um futuro à Bad Lucy ]
Estou encaminhando uma prece para que um dia todos os meus infortúnios possam transformar-se em literatura. Pois se um dia isto acontecer, se um dia eu conseguir transpor com propriedade tudo o que me vêm ao espírito, será como um dia de guerra, de explosões, de colapso estelar, uma nova hecatombe espiritual, novos ódios, novíssimas dores, encantamento no horror do cruel experimento. Estarei postada ao lado de todos os meus maiores medos, enganos e promessas, fiando em uma roca mental toda a matéria-prima da qual minha alma está mais do que cheia. Sei que ainda poderá encher-se mais, até que este dia de iluminação e espanto chegue; sei que nada será suficiente para mim. Sei que desejarei muito mais do que isso, desafiando o cosmos, a dor, a náusea tremenda. Percebo que continuarei assistindo a coisas inacreditáveis – ou absolutamente críveis, por mais odiosas que sejam – e continuarei falando delas, com maior ou menor propriedade. Prosseguirei daqui até o fim descrevendo de maneira incompleta tudo o que viver, tudo o que foi feito de mim, todos os meus sentimentos, meus sentidos, tudo, tudo aquilo que me for possível apreender pelo contato, pela osmose ou pelo mergulho mais profundo em rios hostis. Minha matéria-prima enriquecida, lã de carneiro emaranhada, teia e seda, fezes e ouro puro: preciosidades que continuamente virão, sempre entrando, invadindo-me com muita força...
E as palavras – sou inimiga delas – quem sabe virão, ou talvez, como de costume, deixem-me esperando (eu sempre estou esperando), ou ainda pode ser que ousem enganar-me e expressem coisas que não são bem verdade ou nada além de mentiras sujas. Não confio mais nas palavras do que confio nas pessoas ao meu redor.
O dia em que eu alcançar este nível de expressão – o dia da hecatombe, do colapso maior, do vôo – estarei satisfeita. Não feliz, se o que entendo por felicidade seja a compreensão alheia. Estarei satisfeita comigo, com a minha boa roca de fiar. Mas até então, o que devo fazer? Acumular, encher uma caixa-forte, matar libélulas ou criar um diabo em uma garrafa? Tudo é inverossímil para mim hoje. Qualquer possibilidade está fora do meu alcance, longe, cadáver sem mãe...
Poderei eu amamentar serpentes?
abril 29, 2004
[ De Saco Cheio ]
O que me assusta nessa temporada é a minha capacidade de isolamento.
A humanidade me cansa.
março 16, 2004
[ A Noite do Silêncio ]
Enquanto a chuva e a fumaça se desvanecem... Elas vão deixando apenas a certeza de que está tudo acabado entre nós. Consigo perceber o tímido luar adentrando pelas frestas da janela, lembrando-me tudo o que deixamos para trás. Só o que restou em meu peito foi adeus.
Vou caminhando para casa e pensando “Como nós podemos deixar acontecer um final desses?”. Um final em que cada um segue o seu caminho. O seu destino. A sua escolha. A sua vida. Cada um bem distante do outro. Nós deveríamos ter finalizado o nosso último momento com um beijo demorado. Só que é tarde demais. Não há mais nada a ser feito. Você já não pertence mais ao meu futuro e eu não acredito mais em nenhuma palavra que sai da sua boca.
É tarde demais... É como querer assaltar o amor com uma arma.
Nessa noite do silêncio, nós apagamos nossa luz de velas. Nossos sonhos e desejos inesperados. Nossos domingos no quarto. Nossos beijos de telenovela. Todos os passeios e planos inspirados na nossa vida de casal. Noite do silêncio. Noite em que o nosso amor morreu.
Não há mais palavras a serem ditas. Estou cansada demais para lutar... você nunca passou de uma doce ilusão.
Eu só queria que me abraçasse forte, segurasse a minha cabeça em seu peito e não me deixasse partir, me fizesse acreditar que nada do que eu vivi com você foi uma mentira.
Era tudo incrivelmente simples quando você estava para ser o rei dos meus sentimentos e eu a tua rainha. Onde foi parar todas as promessas que fizemos? Todas as nossas qualidades e todos os nossos defeitos? Eu ainda sou a mesma menina sentada na janela dentro do Maria Fumaça, percebendo que o trem corta o céu em plena tempestade.
Agora, deixe-me partir... Está é a parte mais difícil da luta travada dentro de mim. Não carrego mais as mágoas. Fui apenas mais uma vítima dos sonhos e da noite. Só que é tarde demais, não há como salvar esse amor que está morto. Não há mais palavras a serem ditas. Estou cansada demais para lutar.
Então me abrace bem forte e não me deixe partir...
Depois que a chuva e a fumaça se desvaneceram... Quando tudo está acabado entre eu e você. Quando o sol apareceu, nada havia sido deixado... apenas adeus.
março 09, 2004
[ Reservas Quebradas ]
Havia palavras por trás do silêncio, havia olhares acompanhando as palavras, havia mãos que não eram suas e tiravam minha roupa enquanto você chorava. Havia discussões, reconciliações, declarações, torturas, havia madrugadas em claro, textos que eu escrevia e não deixava você ler, beijos que me deliciavam e eu não deixava você perceber, havia o meu passado que me alertava contra o que eu senti por você no instante em que te olhei pela primeira vez. E hoje, você é o meu passado.
Não, não é como uma valsa. Nem tango. Nem jazz, nem blues. Nem música eletrônica. Nem rock triste. É como a tempestade que cai lá fora. É como todas as noites em claro, todas as discussões sem limites, todas as suas vontades impostas sutilmente. É como todos os longos beijos, todas as canções em comum, todos os sabores do seu sorriso e todos aqueles risos que apenas eu tinha o poder de arrancar de você. É como aquela sua obsessão de repetir sempre as mesmas palavras e pessoas do passado; quando estava triste, repetia o lenga-lenga de que era bom fazer flashbacks. E quando estava feliz, esquecia do mundo e curtia os momentos; quando estava nervoso, parecia murchar; quando gozava soltava um rápido suspiro e se fechava como uma ostra presa nas rochas. Esse suspiro sempre me surpreendia, eu pensava sempre: "ainda não suspirou por quê, se já está...". Quando finalmente você o libertava eu era quem sentia prazer.
Você foi o primeiro a quem eu me entreguei de corpo e alma. E espero que não seja o último. Que Deus me ajude se algum dia eu sentir isso de novo, porque minhas reservas foram quebradas por você. Descobri que não tenho mais medo (e isso me assusta).
março 02, 2004
[ Não fala mais comigo ]
O mar não fala mais comigo, o guarda-roupas nunca falou comigo, meu pai não tem falado comigo, meu papagaio está dormindo, as margaridas não cheiram mais como antes e as paredes não dizem nada e me olham. O lugar passa. Eu passo pelo corredor, entro no banheiro, a torneira faz seu monólogo, mas não é uma conversa. A vela não está dialogando com o som, nem o som se dirige a mim e espera minha opinião, vai indo de uma música à outra sem se importar se estou gostando. Ou não. Não espera que eu peça uma música, simplesmente toca. Eu não espero mais que esperem minha voz, eu falo e me escondo, e me escondo e falo mais baixo.
Lá embaixo havia um diálogo. Minhas pernas tentam conversar, mas suas mãos ficam longe de escutar - precisaria se aproximar, e me ouvir, ouvi-las, é o que você quer? É o que eu quero? Eu quero dialogar. Não precisa ser assim, claro. Não há outro jeito, eu tento conversar com meu umbigo, não há saída. Minhas
saídas seriam ler e ler e ler, assistir um filme, mergulhar em outra realidade que não fosse a minha, dessa minha estou cansada. Mesmo. Cansada mesmo dessa minha não-realidade presente. Minha realidade é querer outras realidades, talvez presentes - em quem? Onde? Onde está minha mãe? Ali deitada, em outro quarto. Onde fica meu pai? Ali no telefone, em outro estado. Eu estou alterada, estado alterado de carência extrema. Saco.
Sem pai nem mãe nem imaginação, imaginação poderia me salvar - salvar de quem? Dessa maldita insônia. Estou morrendo por falta. De sono. Essa falta de troca, de imaginação, troca de imaginações. Escambo de realidades. Venda de colo, quanto meus ouvidos devem pagar por um colo? Troca de olhares, vejo você de outra forma, veja a si mesmo dessa forma - mexendo no meu cabelo enquanto fala, vamos fazer o quê? Esperar por uma frase, esperar por quê? Trocar a minha alma por um beijo. Não, não me ligue, eu não espero mais que um colo, não queira mais que poucas palavras, eu quero ficar quieta, eu quero falar muito, não espere a mínima coerência, tenho pensado tanto que cheguei à incoerência de não saber como dizer. Tento treinar com as paredes - ainda sei beijar? Acho que não, acho que nunca soube realmente. Você gostava de como eu beijava? Ok, muitas vezes eu não queria beijar, tinha uns ataques cinéfilos de beijos antigos, lábios colados numa posição que fazia rir. Ou, por aquele filme que eu gostava tanto, "na boca não" - mas o seu beijo, eu amava. Você simplesmente tinha que conviver com meus ataques, e eu com os seus. Era tão complicado assim, ou nos entendíamos em nossos desentendimentos? Entender não é importante. Eu te amava. Você entende porque alguns casais se amam e outros não? Entende porque eu não amei todos que eu conheci? E acha que conheci todos com quem fiquei? Acha que você me conheceu pouco ou bastante, o bastante para me odiar, um pouco para se sentir apaixonado no início ou lá pelo meio? Acha que estou complicando o simples, e apenas isso, complicando o que é simples?
Não nos falamos mais, é simples, isso é simples e difícil. Difícil para mim. Acho que não repetiríamos erros (brutais, imaturos) mas se repetíssemos, acho que eu... não, não acho que repetiríamos, nada se repetiria. Somos outros agora, sendo os mesmos, então acho que... a minha natureza, a sua natureza, fora daquele contexto, fora daqueles nossos problemas, dentro de outros problemas, sendo a realidade outra, essa, agora, atual, como seria? Conversaríamos sem receios, como antes? Seria espontâneo (isso é perigoso, dependendo de - de tantas coisas, de quem seja, e com quem, e quem está ao redor, e etc, tantas coisas, onde eu estava? - ah isso pode ser perigoso, ser espontâneo...) - mas seria espontâneo ou haveria um - muro? Defesas entre nós? Palavras entre nós? Quero colo - seu, não das margaridas. Procuro o colo delas. Agora. Eu converso com elas, reclamo que o mar não fala mais comigo, o mar verde-água translúcido com algas macias e perfumadas no fundo. O mar que morava em mim quando eu mexia no seu cabelo. O mar que se agitava em mim quando eu deitava com você. O mar que escrevia quando você me abraçava. O mar que era música enquanto a gente acordava. Eu, aos poucos, vou andando. Até o guarda-roupas, que nunca falou comigo, buscar alguma coisa que não se encontra lá.
* Essas noites de insônia estão me matando.
março 01, 2004
[ En-fim. ]
O cérebro não parou de funcionar nem um só momento durante essas quatro madrugadas. Não consegue relaxar, coitado. Está entusiasmado com os progressos dos seus novos projetos. Deslumbrado, porque no dia seguinte poderá mostrar ao mundo parte de mais uma das suas ousadias. O cérebro ainda desconfia que tenha algumas qualidades e que possa, às vezes, se desconectar do resto do corpo...
Ele permanece calado, trabalhando, ganhando tempo enquanto tenta assimilar-destruir qualquer dúvida e lembrança a respeito de certo relacionamento mal-resolvido. Finalizado, graças a sua força de vontade de sempre se expor. De querer receber a mesma atenção e lógica para resolver uma situação, e seguir adiante... Mesmo tendo a certeza de que pode causar a infelicidade e o sofrimento de certo órgão do lado esquerdo do peito...
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