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janeiro 18, 2006

[ Devaneios ]

Transformei os meus devaneios numa pequena lista de auto-ajuda para os pobres freqüentadores deste desconhecido e solitário espaço. Viagens de sugestões enquanto esquento a água e tomo uma caneca de café:

- Conte todos os vidros que se estilhaçam na rua enquanto você cerca-se de álcool, sexo, comida e remédios.

- Olhe pra cima e veja os fogos de artifício que se espalham enquanto seus passos se arrastam.

- Descubra-se rasgando os posters cuidadosamente colecionados em anos de pubescência rock.

- Sinta-se com vontade de surrar Macaulay Culkin por ele simplesmente não ter entendido nada. E há todo colecionador de idéias roubadas que já conheceu, não tenha pena, simplesmente aniquile da sua vida. Sempre prefira o original.

- Compare sua respiração com o motor do seu carro enquanto você faz e desfaz a primeira marcha.

- Aceite a chuva que vem sem privilégios.

- Violente suas palavras enquanto você lida com as pessoas para quem nunca desejaria sorrir nesta vida.

- Faça um exame de consciência nos outros.

- Culpe sua petulância e redescubra-se entre dois sonhos.

- Ironize seu próprio medo de que Deus não exista.
Um dia você não vai ter mais dúvidas.

- Quebre seu silêncio com um martelo pesado.

- Pare de gravitar em torno dos seus 12 anos.

- Substitua expectativas por exposição crua.

- Nem Houdini fugiu de si mesmo.

- E quando você descobrir que não quer se acalmar?



abril 04, 2005

[ Chuva e Pressão Baixa ]

Chove desde sexta-feira de madrugada. Meio frio, dias azuis pela tarde. Depois fica tudo cinza e chove de novo. Chove agora, molha a rua e meus olhos doem um pouco. Mas só um pouco. Muita sonolência, pressão baixa, remédios, ambiente fechado, quase 24 horas deitada de domingo para sábado. Ontem e anteontem de noite, você, deitado ao meu lado. Dias de chuva não deviam acontecer quando já chove por dentro. Você gosta de chuva? Tem quem não goste de geléia de uva, e rimas fracas nunca foram meu forte.

Um vazio, um aviso de calafrio me percorre antes de teclar com os dedos tensos e a mente torpe estas linhas frias em um dia morno. Baforadas de pecado, conjunto de desejos que me aparecem sem aviso e me dizem "por favor". Consumo-me como ao ar que respiro e ventilo meus ares com seus ventos de metileno e cócegas na alma. Sim, como é fraca a nossa alma, como é falha a nossa calma, como as mentiras jogam os direitos contra o chão sem armas nem gosto doce nos lábios.

Papel fino e flores mortas, todas enroladas no turbilhão que escapa na ponta da brasa e te subtrai consciência, te exonera instinto, te faz perder palavras na cabeça e dá fome de idéias. O passado parece uma mosca morta comparada ao inusitado futuro atrás da porta. Você não está comigo e quer me vedar dentro de caixinhas ou de tupewares até a sua vontade de comer chocolates chegar. Sempre assim, sempre desejos e temperos esparsos, aqui e acolá.

Por isso o edredom tem se tornado tão curvilíneo, tão repleto de sonhos. Um amor diferente tem ocorrido, um quádruplo envolvimento entre a cama, a fugitiva, o travesseiro e o edredom. Corro para esse esconderijo, essa caverna rasa e funda que eu me perco e me mantenho quietinha. Tenho liquidificado e bebido tanto umas histórias tutti-frutti’s. Como a luta de rebeldes e Jedi’s contra o lado negro da força, e o resgate dos Smurf’s desse exército do mal. Creio agora que o Gargamel virou o Darth Vader. E eu, a Cintilante, a melhor amiga da She-Ra.



maio 14, 2004

[ A Busca pelo Jardim ]

O mar espalha num espelho o ar peixes, caranguejos, leões marinhos, e eu, navegadora, solto um beija-flor devagarinho pela linha do horizonte luar. Tu, anjo torto, deitas por cima das pedras do ciúme num jardim das delícias e, de pronto, toma um porre de lança perfume. Exaustos de preguiça visamos dardos onde estão os rastros das nossas línguas-carícias.

Espirro bolinhas de sabão. Mas as vias entupidas não atrapalham o meu nariz de sentir ao longe o cheiro do amigo-perfeito. Ele traz consigo no peito e na memória o CD mais o adesivo que há tempos me deviam uma confissão. Músicas e comédias românticas sem você não são nada. Relevante mesmo, só o peso dos cadernos e livros multicoloridos carregados de passagens do trem pelo meu domínio.

Já no precipício lanço-me como um corpo montado por cardumes e enxames. Desato os meus laços, espalho-me e afogo-me no vazio. Cada pedaço no espaço vai em busca de um canto preparado para ti nas rosas do jardim.

[ Entupidamente Feliz ]

Entupida: Estou gripada.
Feliz: Meu pai está aqui.



março 11, 2004

[ Da série: Devaneios de Palavras ]

a cerca. o passado. os fantasmas. as criaturas. do mesmo lado. na frente. a volta. você vai voltar? voltar atrás.

cortar. não os pulsos. os caminhos. a ponte. o rio. a enchente. de palavras. de lágrimas. a chuva. os banhos. os sonhos. os bons. os ruins. os sumiços. os agitos. no peito. no corpo. na mente. o trabalho. o projeto. a diversão. sem você.

a manhã. a noite. não importa. o telefone. os sorrisos. você é. a magia. a paixonite. infantil? o carinho. o colo. os desejos. os beijos estalados. no nariz. no queixo. na alma.





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