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julho 26, 2005
[ Há Quem ]
Avançamos pela rua. Não somos vários, somos provavelmente um só, mas aparentamos conter em nós uma multidão indefinida. Estamos afastados pelos satélites, pelas marcas das roupas, pelos bilhetes de identidade, pela burocracia, pela língua que falamos, pelas línguas que beijamos, pela cor dos olhos que nunca nunca é sempre a mesma, pelos objetivos ou pela falta deles, pela qualidade da parede das nossas casas, pela vida que levamos e que nos trouxe à porta de um carro ou à um par de sapatos para uma longa caminhada. Que já percebemos ao descer a rua, pois estamos perto, bem perto da margem. Quase a chegar, quase a ancorar numa margem de vida.
Há alguém que com mágicas frases na cabeça para dizer, das que se volatilizam na hesitação da civilidade. Há alguém que pondera as compras para o almoço, há alguém que pondera salvar o mundo. Há quem sofra e fique calado, há quem tenha muito para dizer depois da travessia. Há quem não tenha a mínima relação com o mundo, há quem seja filho do acaso, da ausência de “razões particulares”. Há quem tenha esperado, esperado, esperado. Há quem venha a correr, a tempo de ver o veículo parar e abrir vagarosamente as portas.
Depois há um instante em que o interior de um ônibus é o interior do peito de toda uma espécie.
Horas mais tarde, as crianças olharão com olhos de choro para as portas do automóvel que engoliu os grandes, que engoliu todos, e o sal do choro salgará o ódio.
E quem vive respira, e come, e bebe, e fuma, e dorme desespero.
Deixa de importar quem trouxe quem, para levar para onde: urge uma mão invisível para acordar os vivos que adormecem mortos.
dezembro 14, 2004
[ Estação da Morte ]
Sentada na praça, vendo a vida passar, os carros passarem; noto em uma
cadeira ao lado, um senhor, com seus tantos anos de idade, tratando pombos
com migalhas de pão.
Seu rosto, marcado pelo tempo e pelas rugas, ainda transmite uma serenidade
inigualável. Uma força de viver intensa.
De repente, é surpreendido por dois jovens que passam ao seu lado, fazendo
uma corrida matinal. Se derrama em lágrimas. Grita de dor e saudade. Olha
para suas pernas e para sua cadeira de rodas e lamenta quão injusta foi sua
vida, seu destino.
Seu rosto sereno, se esconde dentre as mãos, cobriu o rosto e sofria consigo
mesmo.
Só!
Seus dedos já úmidos, tremiam incansavelmente.
Os jovens continuavam a correr, e o velho continuava a chorar. Saudades do
seu tempo de moço.
Num gesto de revolta, colocou as mãos nas rodas, e seguiu seu rumo. Me
assustei com isto e resolvi observá-lo à distância.
Seguiu até a estação ferroviária com o rosto amargurado. Se colocou com
dificuldades nos trilhos. O som estridente do trem não foi o suficiente para
tentar tirá-lo de lá.
Ele gritou, e viu que o que estava fazendo era algo desesperador. Naquele
instante relembrou de todos os seus bons momentos e se arrependeu de todos
os seus pecados.
Colocou as mãos nas rodas e tentou sair.
As rodas se encravaram nos trilhos e ele foi ao chão. O som estridente se
aproximava e ele se rastejando não conseguiu sair. Além do barulho de trem,
só se ouvia suas súplicas:
"Eu só quero andar, não me deixem morrer."
O trem passou, e com ele os gritos, choros e súplicas também se foram
O silêncio pairou...
O velho estarrado nos trilhos e sua cadeira ao lado. Sua fiel companheira,
até a morte.
Sua revolta foi maior do que sua vontade de viver.
Que ao menos seu espírito ande em paz!!
setembro 16, 2004
[ Drowned in the Desperation Sea ]
 Afogo-me no mar do desespero.
Não me encontro mais em mim mesmo.
Só no aconchego dos teus braços iluminados
eu conseguirei me salvar.
agosto 24, 2004
[ Efeito Borboleta ]
Só sabe ser quando abre o caderno colorido, apanha a lapiseira preta e ocupa-se – a verdadeira ocupação – em desenhar letras com o grafite de cor indefinida, letras comendo as finas linhas azuis da superfície do papel, no verso a contraparte do que escreve, o passado de sua escrita do agora, confusos traços ao contrário, ela agora a mexer nos óculos que não estão (deixou desde os 15 anos de idade), sente o contorno, o peso, a consistência deles, o que é o costume, minha gente. Só sabe ser quando escreve, espera que o pensamento não fuja, porque não há nada para se ver ao redor, o caderno é o espelho por excelência e a ela só interessa Ela Mesmo.
Um perigo, um verdadeiro perigo quando até o mais prosaico dos gestos, o mais comum dos estados estáticos, se enche de importância e ganha profundidades caleidoscópicas, e tudo então se torna passível de análise, é uma loucura e você jura estar enlouquecendo também por enxergar profundezas em poças d’água, sentindo-se idiota e sentimental, caindo nas armadilhas do senso comum – ou não? Nada há de comum nisso.
Por que tudo parece esquisito e surreal? Por que raios estou agora me aprofundando em múltiplas realidades?
Por que diabos esperava um milagre, se nem sabia que tipo de milagre desejava? Angústia de sonhar com o milagre, de imaginar um leque tolo de milagres, qual deles queria, e por que o queria, se jamais viriam? Sempre o mesmo: não há milagres possíveis quando se espera por eles. Tomou mais um gole de vinho, os espelhos, Deus do céu, morava em um espelho postado diante de outro e ambos se refletem, ela mesma centenas infinitas de vezes, bonecas russas enfiadas umas nas outras até o indivisível do ser.
Hoje recorda-se, é inevitável a recordação. O quarto, um grande espelho, a vertigem da descoberta do inefável, o vazio das imagens refletidas até o fim do tempo e do espaço, até sumirem pequenas uma no íntimo da outra. Só sabe que frio e tudo se congelou, hoje compara ao sonho parisiense de Baudelaire, mas na ocasião era só um frio de solidão e pena das imagens que se perdiam durante a experiência, menina de filme de terror, dá medo olhar para dentro dos espelhos.
Nessas horas, quando tudo se confundia, o mais sábio a fazer era abrir as janelas e bater as asas, como as de uma borboleta.
* Musa Louca não pode mais assistir esse filme.
agosto 14, 2004
[ É isso aí ]
Um homem escreve para destilar o veneno que acumulou devido à sua maneira falsa de vida. Está tentando recapturar sua inocência e no entanto tudo o que consegue fazer é inocular no mundo o vírus de sua desilusão.
agosto 04, 2004
[ Dispa-se ]
Não dispa a sua roupa, o meu desejo morreu na esquina enquanto via mendigos sendo espancados pela polícia. Deseje-me sorte na próxima segunda, porque, nesta, o que eu vi e ouvi foi demais para mortais podres como nós.
Dispa a sua coragem em frente ao seu destino. Está tudo perdido nas suas próprias mãos. Dentro da sua alma. Não mais intacta desde o momento que você nasceu. Não adianta banir os pecados da sua casa. Eles estão o tempo inteiro lhe cercando, não há um só lugar em que possa se proteger. A não ser... em sua cova. Dead.
Dispa a sua morte. Uma ótima idéia. Você não pode salvar o mundo embaixo de sete palmos de terra. Nem no céu com anjinhos de cachinhos dourados sorrindo da miséria dos quais eles mesmos protegem. Protegem contra quem? Do mal? Do diabo? Há-há. Ele apenas sorri. Alah é quem está vendo tudo. Será? Ele tem piscado bastante desde que construiu espaços e seres a sua volta.
Dispa a sua memória. Para que guardar o que te faz sofrer? O que te faz pensar no amanhã? O que te faz rezar? O que te faz sorrir? Para quê? Todos esses segundos esgotados não voltaram atrás. E você, otário, ficará tirando as folhas do calendário, trocando as roupas do armário... e lendo um dia ou outro esse blog-não-diário.
Dispa a sua fé. O futuro brilhante se apagou. O túnel é infinito. Por isso continue a escavar em busca de palavras perdidas, de pessoas imaginárias, de um amor molecular, de mentiras que a todo momento são criadas para você perder um pouco mais da sua auto-estima. O negócio é o seguinte: os demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca se iniciou e Eros nunca deixou a barba crescer.
Vamos... O que está esperando? Dispa-se de vez das suas vontades. O mundo é insano. Se eu te beijasse agora, isso poderia ser considerado um ato de terrorismo. Pois qualquer um pode notar que eu possuo no olhar doce e nos lábios flamejantes o imaginário prazer do caos.
Em repeat Moonspell - Selfabuse.
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