Perdida entre o tempo e o espaço. Entre o choro próximo ao meu quarto. E as lágrimas que escorrem da minha própria face. Entre o medo e a angústia de não poder reter os segundos. As horas. Os meses. A vida. Você do meu lado. Eu não consigo imaginar o que eu posso ter feito para você querer me abandonar desse jeito. Não agora que eu tenho tanto para lhe mostrar. Sempre tenho tanto para conversar contigo, tanto para lhe querer por perto. Desde o momento em que me sentia dentro de você.
Confesso que sempre tive um medo incontrolável da morte, quase doentio. Acho isso até bem normal e acho também que o tempo e a maturidade nos ensinam muito a lidar com nossos medos, a controlar os nervos e aprender a superar mesmo as coisas mais difíceis. E eu aprendi a evitar a morte, a não pensar nela, e acho que esta prática facilita muito a vida, mas vendo tudo o que está acontecendo em minha porta, ao imaginar que eu convivo com ela de forma impressionante, fico pensando se talvez não fosse melhor mudar o conceito de que é bom chegar ao final da vida com pleno desenvolvimento cerebral, que talvez seja realmente melhor que a desintegração cerebral acompanhe na mesma proporção a desintegração física, facilitando o duro processo a que estamos encurralados a atravessar.
Será que não há uma força acumulada por décadas para simplesmente não desistir, como fazem muitos, que se encostam a suas poltronas e esperam a morte chegar?
Quando eu era criança, chorava no meio da noite com medo da morte. Minhas lágrimas não acodiam e não acodem mesmo agora nem nunca, não relevam, não comportam, não absolutamente nada e não sei se há alguma coisa a ser dita que possa fazer alguma diferença para minha mãe que não a demonstrem o quanto ela é importante para mim, para a minha família, para a manutenção de valores e idéias numa sociedade mais dilacerada que seu frágil corpo. Não sei o quanto tempo ela viverá ainda, não sei mais se torço para que sejam muitos anos vendo o que ela está passando, se negando a se tratar, vendo o quanto o homem é pequeno frente ao seu destino, vendo o que é capaz de acontecer com o organismo humano com uma doença dessas.
Felizes os que ainda contam com a ajuda da Igreja, um decisivo subterfúgio que sem dúvida alivia agora e sempre e de certa forma conforma. Fico feliz por ela ter essa fé. Porque mesmo negando a doença, ela acredita que a doença não existe e é criação da mente. Porque eu jamais me conformarei, jamais, sou uma pessoa instável e não consigo me contentar em seguir sempre um script, minhas pernas tremem, incomodam, querem se mexer, querem fugir a regra. É tão difícil aceitar um destino pronto que me volta intensamente a velha vontade de chorar.
Ao não me interessar pela morte, acabo não aprendendo muito e realmente, às vezes, não sei o que dizer a minha mãe. Não sei o que pensar sobre o rompimento da hierarquia da vida, ela, antes dos meus avôs que estão logo ali ou até mesmo eu batendo insistentemente na porta, sem solução, sem possibilidades, apenas seguindo uma lógica insubstituível da vida.
Minha mãe está ali, sentada a poucos metros de mim, mal me ouve, está centrada em seus pensamentos 15, 18 horas por dia, se comiserando, enquanto a natureza se encarrega do resto. E diante de variantes quase nulas, ainda me pego às lágrimas, eu que estudei matemática, que entendia de lógica e jamais ousei encarar as ciências exatas e as contas que acabam sempre no mesmo resultado.
Provavelmente estarei até o fim com lápis, tinta e mouse na mão. E é só o que eu posso esperar por enquanto da minha mãe. Enquanto ela não decidir se curar. Se não podemos vencer, pelo menos honremos nossa presença aqui lutando incondicionalmente até o fim, até o último momento, tentando aproveitar da melhor maneira possível.
E assim vamos tentando e tentando e tentando. Se for só o que nos resta, por que não fazê-lo enquanto tivermos forças?
Depois de algum tempo...
"Minhas lágrimas não caem mais
Eu já me transformei em pó
E meus gritos não se escutam mais
Estão na direção do sol
...
Se alguém encontrou
Um sentido pra vida chorou
Por agüentar a perda que se tem ao fim de tudo
Transformando o silêncio que até então é mudo"
Duca Leindecker

[ Recado Direcionado ]
Obrigada pelas poesias que tem feito pra mim,
ciumento.
Algum momento da madrugada:
Eu não amo ninguém, o meu amor é só seu.
Em meio às lágrimas, um sorriso.