Mas se eu descobrir os seus segredos, se eu os encontrar, como, distraída, uma criança dá com seus brinquedos em recônditos insólitos da cozinha, da sala, do quarto de dormir- Como uma criança que um dia os escondeu e que depois saúda-os, dá-lhes as boas-vindas, como se não os tivesse visto ainda nunca em sua curta vida.
Mais curta que sua vida de menina era sua memória, o que lhe proporcionava novidades cotidianas que, apesar de serem-lhe constantes, não lhe causavam a perda do espanto – ela já não era mesmo capaz de recordar-se de que fazia tão pouco ela se havia surpreendido. A menina vivia uma vida de espantos e sorria-lhes, alienada e distante, e depois dava-lhes as mãos e saía para brincar com eles.
Não me tome por essa menina: não que eu não me surpreenda. Ah, como eu sei me espantar, eu aprendo o sobressalto a cada momento, eu sou tão descuidada. Eu me lembro de tudo, de tudo eu quero uma memória, um fiozinho de lembrança renovada, de recordação que sou capaz de reinventar mil vezes, sem esquecimento. Minha história de lembrar é assim, parece um reguinho d'água que brota muito lá longe, numa nascente persistente. Barulho de história é bom de escutar, de embalar para dormir, samariquinha maroquinha tinha uma linda casinha nos tempos do amor, minha história lembrada faz encher uma canção de ninar. Mas eu não sei e acho que não quero aprender a não inventar.
E se eu der com os seus segredos, essas histórias feitas em novelos, enquanto percorro os corredores da sua casa, sonâmbula e silenciosa, seguindo o som chiadinho da sua máquina de fiar, e neles enroscar meus pés como gatos que se embolam enlaçados nas histórias, boas de fazer correr pela casa, de meter as garras, e depois modorrar, em fim de tarde? Eu sou tão descuidada no caminhar. E se os seus segredos se enroscarem nos meus pés feito raízes de plantas aquáticas, por baixo do escuro de um rio que correu do reguinho d'água e que agora se demora porque tem preguiça de ir um pouco mais além? Se eu colher, distraída, os seus segredos que brotam nas frestas do seu chão, pés de mato que você se encarrega de semear durante o sono, mato que cheira bem feito dama da noite, o que será do que um dia sonho chamar de meu e de seu? História lembrada de inventar mil vezes começa com a tosquia da lã, com o tingimento em cores que nossos olhos viram – agora ainda não é tempo de lã, não é estação de colorir, acredito que não, digo que acredito que não querendo dizer opostos, tentando chegar ao fim do novelo pela ponta de cá, inventar estações mais avante. Eu sou tão descuidada.
Se eu agora aceitar os seus segredos, se eu chegar com a violência arrebatadora de quem vem para violar o que se não desejou ainda expor, eu estaria indubitalvemente presa ao chão, ao seu chão, pior que raiz de árvores velha em praça de igreja matriz em cidade no interior. Se eu tomar os seus segredos, eles me pesariam mais que uma mala cheia de uma infância toda triste e todos sabem e se você ainda não sabe, escuta, presta atenção, os segredos alheios, os que nos são dados, fazem a gente ficar levinha, é o jeito mais simples de aprender levitação: o mistério de tudo, os seus mistérios.
Eu aguardo, eu sei isso também, fazendo das tripas coração, porque não tenho paciência milenar, ela se consome em segundos. Será preciso que eu a encomende de longe e que a guarde dentro de um relicário que atarei ao meu pescoço enquanto eu deitar antes do sono. A paciência, a paciência é muito escura, às vezes tem lua, e sempre aclara de manhãzinha. Vou continuar olhando você enquanto dorme e prossegue na sua semeadura noturna, samariquinha maroquinha, eu te vigio mas prometo nada encontrar, não toco em nada com medo de quebrar, eu sou tão descuidada com as mãos, eu aguardo a estrela da manhã, como se eu dormisse para acordar numa poesia, eu espero seu sinal.
O seu segredo vai então estar me esperando, me olhando, em cima da mesa, ele estará embrulhado em fino papel de seda, vai ser pôr minha mão sobre ele, ele vai se rasgar, eu não tenho muito jeito, em volta dele haverá uma fita, um laço que desfarei sem que me oponha resistência, uma linha que não conheceu e não conhecerá a antiga história dos renitentes nós. Haverá uma dedicatória invisível, que não encontrará nem tinta nem papel que a suporte ou traduza -- vai ser preciso aprender a língua das lãs coloridas: " E são seus. São meus os seus segredos?", eu ouvirei você dizendo, como quem me pede uma pista, como quem quer fiar comigo e eu te direi: "tem também paciência: os meus segredos, eu só os guardo para que você os procure, para que os queira encontrar". E assim, com esse pacto invisível, poderemos nos casar.
Adventurous Life II - Dawnfine e Captura - Automata.
Otimo domingo a vc,MUSA LINDA!!!!
Posted by: DO em agosto 21, 2005 12:47 PMHey Luciana! Belíssimo texto, quanta inspiração...
Agora me encontro consolado, pois, apesar de ter perdido o show do Ira! em Itararé/SP nesta última sexta-feira, fiquei sabendo que em novembro tem outra apresentação da banda em Cerquilho/SP, que é bem mais perto da minha cidade...
Beijo no coração e tenha uma linda semana, Lucy!
Posted by: Paulo Vitor em agosto 21, 2005 05:56 PMLivros, livros, livros... Vocês nunca me apresentam livros... Por quê será? Se a falta de vontade ou há, eu não sei... Cadê o seu, hein dona musa?
Posted by: Fuzz em agosto 21, 2005 07:53 PM"Listen,
Do you want to know a secret of mine? Do you promise not to tell?
Come. Closer. Let me whisper it in your ear: I'm in love with you..."
Simple as that ;)
Posted by: JethroDawnfine em agosto 22, 2005 10:02 AMNão tá muito complicado esse pré-requisito matrimonial?! rs
Beijos e ótima semana;
AH!!!!
NUNCA CONFIEI NO TEMPO,ENTÃO NÃO SEI SE TE ENCONTAREI NA LINHA..NA PROXIMA ESQUINA????NÃO ANDO POR ESQUINHAS,O MEU CAMINHO E SINUOSO E SE ELEVA!!!
Então a gente não se encontra, Mr. Leon. Simples assim.
Posted by: Musa Louca em agosto 22, 2005 07:15 PMtenho tanto medo de colocar a colher onde não sou chamado, afinal o que se passa com você é só você que vai conseguir resolver. Eu sou letras, números, sou internet, sou algo intocavél, falso? Falso não, porém, já quase não subo em árvores, a tecnologia nos congela, eu tenho um segredo pra lhe contar, qualquer dia... :x
Te gosto.
Posted by: Abner Targino Francini em agosto 23, 2005 10:38 AMolá.
Aconteceram muitas coisas desde a ultima vez que vim aqui. E graças a elas superei certos medos, e to escrevendo aqui hoje. Vc ainda continua escrevendo muito bem. E sinto muito por sua mãe, de coração. Pois é, foi uma pessoa nova que te perdoou, uma pessoa que renasceu.
E to aqui para dizer isso.
Péricles
Posta aí.... Beijocas..
Posted by: Pris em agosto 30, 2005 12:58 PM