Sinto falta.
Não a falta atávica, intrínseca: a falta do outro, do falo.
Não.
Essa, nem noto.
Poderia escrever uma seqüência inteira de sussurros e gemidos, catarse, sublimação, mas: não.
Não é por aí.
Sim, eu escorro, pela simples disponibilidade. Naturalmente.
Abro e escorro. Sou coberta, abro e escorro. Sou coberta por pesos e pressões, sou posta abaixo, embaixo, por dentro. Recebo e expulso.
Mas: não.
Falo de uma falta que vem de vez em quando.
Falo da impossibilidade da explosão.
Da necessidade imprescindível da movimentação no espaço.
Ver o tempo correr junto e chegar logo.
Mudar de posição.
Sentir o toque divino da contemplação.
Partilhar isso, meu deus, partilhar isso.
É dessa falta que falo.
Que coisa estranha não, Lu? Deve ser assim com você também: às vezes a presença que preenche não é a do corpo, é a da alma. É o ouvir um coração batendo não porque há um corpo preso a ele: mas porque é aquilo que vem de dentro, do fundo, do infinito do universo. É como saber absorver um silêncio que muitas vezes é de uma inclassificável eloqüência.
A falta transpõe uma forma: a falta pode ser indefinível, indescritível. A falta pode ser aquilo que se sente quando não se está diante de uma pintura do Jean-Michel Basquiat - uma ausência de explosão (aquela explosão?), de ritmo, de doce violência com calda de chocolate.
Mas eu também sinto uma falta danada do bonde, ah... Só que no início dos anos 70 que me receberam menino já não havia mais bonde em Porto Alegre! Como pode isso? E o que dizer da falta que eu sinto dos amigos que eu não tive e dos corpos que eu não toquei? Eu juro que não me incomodaria se tivesse sido um mero espectador das longas horas de conversa entre o Ferreira Gullar, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Amílcar de Castro, Lígia Pape... Amigos que eu não tive. Sinto falta deles todos.
Sim, e no meio de tudo ainda: partilhar. Porque não se pode segurar um quasar brilhante na mão fechada.
Posted by: Marcelo Idiarte em junho 19, 2005 02:31 AMquanto amor ainda vivido por algo que não é nada de concreto. mas é assim mesmo a vida, desejo muito que viva muito mais sentimento, muito mais bonito, em algo realmente concreto.
ora, so mudando de assunto de uma passada no meu flog e veja meu sobrinho..
Posted by: Wesley Darlen em junho 19, 2005 12:37 PMA falta que talvez falamos é a falta em sim, não mais: mas é o que escorre e se perde e se acha e fica zunindo no fundo ouvido. É a parte que toca, e é como sentimento: ou é ou não, mas: não. É dessa falta que falo, de reconhecer a falta em outro e mais outro e viver essa ilusão que a falta que faz é muito nossa, mas: não. É tudo muito mais eco e igual e pessoalmente único. É quando olhamos pela janela e vemos a falta, brilhando no fundo do céu e percebemos que a mesma lua é vista por todos: partilhar isso. É dessa falta que falamos.
Posted by: Ernesto Diniz em junho 19, 2005 12:47 PMforça beibe, força.
Posted by: zed em junho 19, 2005 12:48 PM