maio 27, 2005

[ Dormindo Cedo, Eu Sonho Mais ]

Depois de semanas eu consegui finalmente dormir e acordar num horário descente, mesmo com o insistente som de trimmmmmmmmmmm do telefone ao lado da minha cabeça. Era o moço-sabe-tudo-SCI-FI com aquela voz que me arrepia os pêlinhos da nuca. Ele me perguntava o porquê de eu não ter retornado a ligação ontem à noite enquanto eu me preocupava em olhar os passarinhos dando vôos rasantes em frente à janela. Continuava a observar os movimentos e os barulhos matinais, e o moço não sabia me dizer uma receita comum para se fazer peixe.
Levantei decidida a sonhar mais e a pegar o último ônibus para os seus braços, baby. Seja lá você quem for. Risos. Aguarde-me, por favor. Eu já vou, já chego, prometo que é rápido, meu querido. Irei correndo quando você me chamar. Quando me quiser, eu irei. Levarei um pouquinho de paz e umas manhãs que encontrei enroladas comigo na toalha. Você saberá de todos os meus inventos e intentos, e quantos copos de saudade, dor e amargura eu já bebi de um gole só. Deitarei ao seu lado quietinha, sonolenta, e esperarei o dia cair lá fora até virar manhã de novo, até o sol nascer pela janela, colorir o horizonte, com minha mão na tua barriga, minha alma na tua boca, meu coração nos teus dedos. E será tarde, muito tarde, quando dormiremos juntos. As almofadas aos pés da cama, as roupas espalhadas pelo chão, o CD de Massive Attack em repeat no computador, a luz se enfiando pelas frestas entre a coberta, os olhos fechando... Será tarde demais, meu querido. Todo o tempo do mundo acabará. Tarde demais.


Por Musa Louca em 27.05.2005 - 10:50 PM
Comentários

Lu, que susto! Cheguei a pensar que você tivesse ficado chateada com a minha ingerência sobre o telefone da casa... Espero que você esteja bem nessa lonjura de paralelos que nos separam.

Enquanto o Massive Attack nunca termina, deixa eu jogar a camisa sobre o abajur e te contar uma pequena transgressão: certa vez esmaguei uma pétala de rosa sobre a língua porque precisava descobrir o gosto daquela textura aveludada. Achei um tanto estranho aquela delirante mistura agridoce, mas num gesto incontido ainda coloquei mais duas pétalas na boca como quem não resiste à vulva do poema. E aonde está a transgressão disso? Bem, eram as rosas que o meu chefe tinha comprado para a namorada dele.

Mas o melhor das pétalas e dos lábios é o sentido dúbio. Isso me remete a um poemito de uma moça da qual eu tenho algumas restrições, a Martha Medeiros, mas para o instante é irresistível:

"Beije-me as coxas,
pálpebras, dedos, lóbulos
Os dois

Beije-me os seios
um e outro, que são ciumentos
ambos

Beije-me os lábios
superior e inferior
os grandes e os pequenos
Todos."

Beijos...

Posted by: Marcelo Idiarte em maio 28, 2005 10:11 PM
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