setembro 27, 2004

[ O silêncio que não é mudo ]

Perdida entre o tempo e o espaço. Entre o choro próximo ao meu quarto. E as lágrimas que escorrem da minha própria face. Entre o medo e a angústia de não poder reter os segundos. As horas. Os meses. A vida. Você do meu lado. Eu não consigo imaginar o que eu posso ter feito para você querer me abandonar desse jeito. Não agora que eu tenho tanto para lhe mostrar. Sempre tenho tanto para conversar contigo, tanto para lhe querer por perto. Desde o momento em que me sentia dentro de você.
Confesso que sempre tive um medo incontrolável da morte, quase doentio. Acho isso até bem normal e acho também que o tempo e a maturidade nos ensinam muito a lidar com nossos medos, a controlar os nervos e aprender a superar mesmo as coisas mais difíceis. E eu aprendi a evitar a morte, a não pensar nela, e acho que esta prática facilita muito a vida, mas vendo tudo o que está acontecendo em minha porta, ao imaginar que eu convivo com ela de forma impressionante, fico pensando se talvez não fosse melhor mudar o conceito de que é bom chegar ao final da vida com pleno desenvolvimento cerebral, que talvez seja realmente melhor que a desintegração cerebral acompanhe na mesma proporção a desintegração física, facilitando o duro processo a que estamos encurralados a atravessar.
Será que não há uma força acumulada por décadas para simplesmente não desistir, como fazem muitos, que se encostam a suas poltronas e esperam a morte chegar?
Quando eu era criança, chorava no meio da noite com medo da morte. Minhas lágrimas não acodiam e não acodem mesmo agora nem nunca, não relevam, não comportam, não absolutamente nada e não sei se há alguma coisa a ser dita que possa fazer alguma diferença para minha mãe que não a demonstrem o quanto ela é importante para mim, para a minha família, para a manutenção de valores e idéias numa sociedade mais dilacerada que seu frágil corpo. Não sei o quanto tempo ela viverá ainda, não sei mais se torço para que sejam muitos anos vendo o que ela está passando, se negando a se tratar, vendo o quanto o homem é pequeno frente ao seu destino, vendo o que é capaz de acontecer com o organismo humano com uma doença dessas.
Felizes os que ainda contam com a ajuda da Igreja, um decisivo subterfúgio que sem dúvida alivia agora e sempre e de certa forma conforma. Fico feliz por ela ter essa fé. Porque mesmo negando a doença, ela acredita que a doença não existe e é criação da mente. Porque eu jamais me conformarei, jamais, sou uma pessoa instável e não consigo me contentar em seguir sempre um script, minhas pernas tremem, incomodam, querem se mexer, querem fugir a regra. É tão difícil aceitar um destino pronto que me volta intensamente a velha vontade de chorar.
Ao não me interessar pela morte, acabo não aprendendo muito e realmente, às vezes, não sei o que dizer a minha mãe. Não sei o que pensar sobre o rompimento da hierarquia da vida, ela, antes dos meus avôs que estão logo ali ou até mesmo eu batendo insistentemente na porta, sem solução, sem possibilidades, apenas seguindo uma lógica insubstituível da vida.
Minha mãe está ali, sentada a poucos metros de mim, mal me ouve, está centrada em seus pensamentos 15, 18 horas por dia, se comiserando, enquanto a natureza se encarrega do resto. E diante de variantes quase nulas, ainda me pego às lágrimas, eu que estudei matemática, que entendia de lógica e jamais ousei encarar as ciências exatas e as contas que acabam sempre no mesmo resultado.
Provavelmente estarei até o fim com lápis, tinta e mouse na mão. E é só o que eu posso esperar por enquanto da minha mãe. Enquanto ela não decidir se curar. Se não podemos vencer, pelo menos honremos nossa presença aqui lutando incondicionalmente até o fim, até o último momento, tentando aproveitar da melhor maneira possível.
E assim vamos tentando e tentando e tentando. Se for só o que nos resta, por que não fazê-lo enquanto tivermos forças?

Depois de algum tempo...

"Minhas lágrimas não caem mais
Eu já me transformei em pó
E meus gritos não se escutam mais
Estão na direção do sol
...
Se alguém encontrou
Um sentido pra vida chorou
Por agüentar a perda que se tem ao fim de tudo
Transformando o silêncio que até então é mudo"

Duca Leindecker

[ Recado Direcionado ]

Obrigada pelas poesias que tem feito pra mim, ciumento.


Por Musa Louca em 27.09.2004 - 03:18 PM
Comentários

enquanto isso um cara de vinte anos leva uma multa por excesso de velocidade. 330km/h numa honda rc51 2002

serah que ele tem medo da morte? virou o meu heroi! ;)

Posted by: Zen em setembro 27, 2004 03:58 PM

so tenho ciumes do que eu sei...rs...

Posted by: Zen em setembro 27, 2004 04:35 PM

esse texto me tocou bastante como já te disse
me lembrei de uma música do flaming lips que diz assim
"pq eu sou um homem e nao um menino e há que coisas que não dá para evitar e você tem de estar preparado para enfrenta-las quando você não está preparados para enfrenta-las"

:_\

Posted by: Júlio em setembro 27, 2004 04:53 PM

Seus medos são parte da massa de tantos outros...Hoje eu deu uma olhada mais criteriosa em seu site...e achei maravilhoso, desde o design tão caprichado (que trabalho deve ter dado hein!?) até a funcionalidade perfeita dele...muitos sites sao bonitinho, mas pouco funcionais. Queria aproveitar a deixa e pedir para q desse uma olhada no meu portifolio ( o Link tem no meu Blog UM no final da página inicial) e me desse sua opniao preciosa...ele é simples, pq nao manjo muito de interfaces e tal...mas foi totalmente feito por estes dedos...rs. Este seu site esconde muitos segredos (adorei suas fotos, vc é linda). Enfim muito bom gosto preenchido com um conteudo terno e inteligente...
Um grande beijo e se cuide nestas terras baianas!!

Posted by: Leandro em setembro 27, 2004 06:36 PM

não há sinal de sol mas tudo me acalma em seu olhar...

saudades

Posted by: de castilhos em setembro 28, 2004 01:57 AM

Desculpa, mas nao pude deixar de chorar ao ler.

Posted by: Wilber em setembro 28, 2004 04:51 AM

Que texto lindo!

É difícil superar certas barreiras. Aí que nossos limites nos fazem perceber o quanto somos fracos. Mas devemos ser persistentes. E esse texto fala um pouco do medo de se tentar superar.

Hoje em dia não tenho mais medo da morte.


Beijos!

Posted by: Diogo em setembro 28, 2004 12:30 PM

Selvagem mesmo eh?...rs...;)

Posted by: Zen em setembro 28, 2004 03:08 PM

Eu sinceramente gostaria muito de poder saber o que lhe dizer... Saber o que realemtne irá acontecer e lhe dar de presente algo tão bom, mas me sinto inútil na minha mortalidade...
espero que vcs fiquem bem....
beijos silenciosos....

Posted by: Paty em setembro 28, 2004 10:35 PM

Passando aqui só pra me despedir.
Tenho que procurar o meu lugar, agora.
O Folha vai sair...

Posted by: d-.-b em setembro 29, 2004 10:08 AM

Poxa, lendo esse seu texto não tive como não relembrar o que aconteceu recentemente com a minha avó. Não sei o que te dizer, nessas horas poucas coisas aliviam o sofrimento, mas posso afirmar que entendo perfeitamente pelo que vc está passando!
Beijos e força para vcs!
Julio

Posted by: Julio em setembro 29, 2004 10:37 AM

Lu,
Eu sei o que estás vivendo!E às vezes a gente chega a se perguntar o "porquê" de tudo isso...por que acontece justamente com a gente e onde está Deus????Aprendi também a não questionar o que agora não podemos ter respostas mas que cada um tem seu tempo,que não é o tempo Dele!O nosso tempo não é o tempo Dele!E me senti impotente por não poder fazer nada...temos que aproveitar o que ainda nos resta,guardar na memória momentos que mais na frente nos fará muito,muito bem e nos confortará quando a saudade chegar sem aviso e quando o medo bater à porta!Eu já tive medo,já me revoltei,acreditei no que é possível e no que não é,me arrenpendi por não ter dito e feito as coisas que deveria ter dito e feito mas hoje eu só sinto saudades e a certeza de que não estou sozinha mesmo achando que sim!FORÇA...LUZ...ESPERANÇA!Um beijo e qualquer coisa,estou aqui!Liane

Posted by: Liane em setembro 29, 2004 03:26 PM

soh quero q vc saiba q foi um dos melhores textos q eu ja li e me emocionou
bjs

Posted by: Betow em setembro 29, 2004 06:19 PM

Nossa minha amiga, chorei com esse seu teto muito bonito... Lute e ajude sua mae a lutar sabe pq pq enquanto estamos aqui devemos lutar pela vida, nao importa se nao há esperanças, nao importa se vc acha q até pode ser pior lutar , sabe... simplesment LUTE... Lute por quem vc ama, por quem vc admira.... Muitos Beijos

Posted by: Priscila em setembro 30, 2004 08:15 AM

Sensibilidade pura,hem,LU...
Uma otima quinta a vc.
Beijo grande!!

Posted by: DO em setembro 30, 2004 08:31 AM

...com saudade de lhe ler
aqui...

Posted by: Zen em setembro 30, 2004 02:48 PM

Puxa Lu, só posso te dizer que espero que as nuvens cinza passem logo pq o seu sorriso precisa brilhar =( O pior é que existem coisas que só o tempo realmente se encarrega de pô no lugar... beijos e girassóis,RAh

Posted by: My_GirL em outubro 1, 2004 07:53 AM

Oi Luciana;
Apesar de ter passado um tempo sem vir por cá, andei perguntando por vc ao nosso amigo..
Vcs dois precisam se "animarem", viu ? :-))

Um beijo e considere que faço parte de mais uma (dentre tantas pessoas )que torçem por vc ! Muita força querida..

Posted by: Aninha em outubro 4, 2004 12:36 PM

Hoje fiz uma para o meu outro amor...ela estava com ciumes de voce... ;)

Posted by: Zen em outubro 4, 2004 02:17 PM

Todos nós queriamos te consolar nesse momento tão difícil, vc que com suas palavras mudou, melhorou,acalentou,fez nossas vidas mais felizes e problemas não tão insolucionavieis assim agora precisa desse mesmo bálsamo que exala de suas linhas e palavras reconfortantes...

...mas somos mortais, normais, todos nós!
Infelizmente somos feitos de carne e osso que com o tempo se consomem lentamente, entretanto por mais que nosso corpo seja frágil o que tem dentro de nós é o que importa, é o que conta...
nossa ALMA

Pode ter certeza que se pudesse eu traria o Sol pra te aquecer quando sentisse frio, a Lua pra enfeitar suas noites tristes e impedia, parava o tempo em seus momentos mais alegres e para impedir que dias tristes cheguem.Mas não posso...

O que posso no momento e te dar a certeza de que torcemos pra que essa fase ruim acabe, desapareça, e por mas que vc insista em nadar na direção contrária vamos ter FÈ como a sua mãe.
Deus é muito poderoso e ouve nossas orações em momentos de desespero. Força linda.

Posted by: Dan em outubro 6, 2004 11:46 AM

Bem, eu nao tinha medo da morte, mas recentemente quando uma pessoa muito querida pra mim, faleceu, ela partiu tragicamente, e quando lembro que por mais que eu sinta falta, nada vai mudar, ele nao vai voltar, me dói tanto, ficou um vazio, e depois disso, acabei temendo a morte das pessoas que amo, sinceramente, temo que isso vire doença e problema pra mim...
Tu escreve muito bem, parabéns...

Posted by: Luana em dezembro 14, 2004 03:01 AM
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