maio 19, 2004

[ Entender de Anjos ]

Agora eu sei desse lugar, que sabe toda nossa história. Saí de madrugada a vagar pela cidade. O sono não vinha. Uma madrugada quase eterna. Passeio pelas mesmas ruas que passeava contigo há um tempo atrás. Aquelas ruas tortuosas pareciam querer me engolir. Eu a via machucada e as casas chorando tua partida.
Similares histórias poderiam ter passeado numa tarde de outono ali, mas nenhuma igual.
Alguns prédios deixavam escapar um feixe de luz que me cegava. Das sacadas voavam papéis, alguma historia desconhecida. Roupas caiam ainda cálidas do calor humano. Alguém acabara um amor. Os berros faziam eco naquela rua vazia e algumas casas acordaram com a estrondosa discussão. Eu esperava.
Alguém saíra ferido. Ferido na alma. Chorava pesadas lágrimas, daquelas que sufocam a garganta e ficam presas, teimosas a caírem. Mas o choro desaguou soluçado, como de uma criança que não quer ficar longe da mãe. Chorava perdão.
Alguém descia a escada do prédio. Algumas malas caíam vertiginosamente, peças de roupa acompanhadas de insultos. Era a abertura de uma chaga, eu bem sabia. Parecia reviver o que passei, mas encarnada em outro ser. As lágrimas caíam e pude ouvi-las dissipando-se ao beijarem o chão. Sentada no meio fio do lado oposto da rua, o vi sair correndo para ver se ela aparecia ainda na sacada. Desesperado olhou para cima, colocou as mãos sobre a cabeça. O peito dele estava secando, a sua alma quase em partida. Ela ainda gritava.
Juntou tímido toda a bagunça da rua. Olhou para a janela, pode ver a penumbra que desenhava o corpo dela. Ela chorava, porque o amava. Ele virou-se e saiu sem rumo, numa noite pálida, de ruas em prantos. Mais um amor se acabou.
Ela via ele sumir sob o céu pesado, a madrugada fria. Até a sombra engolir o seu corpo e ela não pôde mais vê-lo.
Ele ouviu um tiro.
Ela esmaeceu aliviada. Uma lágrima acompanhava o cair de seu corpo, que beijou o leito da rua que chorava a morte do amor.
Cheguei junto ao seu corpo. Fechei os olhos ainda úmidos. A vida partiu do corpo dela.
As minhas asas se abriram em leque. Angelical, pus sua alma em meus braços e deixei seu corpo esfriando sob a luz da Lua. Ele chorava sobre ela. Eu sentia a dor humana. Ele chorou o erro, lamentou e suplicou ser sonho. Uma rasura abstrata da vida.
Ele nunca entenderia os anjos. Eu entendi. Eu morri por amor quando vi que aquele homem que chorava sobre aquele corpo foi o mesmo homem que eu amei.


Por Musa Louca em 19.05.2004 - 10:25 AM
Comentários

nossa lu, q lindo... como sempre. e à vc, o cargo de anjo cai mto bem... anjo da guarda, uma anja amiga, sempre perto pra recolher nossas almas feridas, ou mais q isso. se eu entendo os anjos, naum sei. eles vêm sempre em momentos tensos, pesados. ainda que tragam a paz, os associo à dor. entaum, qndo vejo um anjo, essas lágrimas pesadas aparecem para me sufocar. tb.

Posted by: Carlinhos em maio 19, 2004 10:48 AM

Saudades de ti.. Saudades do teu jeito. E este texto.. Você sempre assim, esperando o que pra escrever teu livro???

Acredito que muita gente estaria interessada em publicar...

E por falar em anjo.. Eu amo o meu anjo da guarda, meu anjo de caminhada (minha deusinha).

Beijossssssssss...

Posted by: Deus em maio 19, 2004 11:17 AM

Nossa lindo demais! Puxa é emocionante... e o final morrer de amor, algo meio impossível hj em dia... a parte em q cria as asas... este está divino! Clap, clap, clap! Parabéns! Adorei demais! Abraços

Posted by: Pathy em maio 19, 2004 11:29 AM

Admito que há muito não lia algo assim, tão..tão..supreendente no descortinar final.
Muito bem, minha musa....
Beijossss

Posted by: Beto em maio 19, 2004 02:53 PM

Interessante. Nao entendi a ultima frase. O narrador eh um anjo ou um espirito???

Posted by: Zen em maio 19, 2004 03:03 PM

Nem precisa eu dizer que é lindo, tenho certeza que vc já sabe disso.
Beijos e obrigada pela força. Tenho essa mania de deixar meus problemas me abater, mas acho que estou aprendendo a mudar isso...

Posted by: Dri em maio 19, 2004 03:57 PM

perguntaram, uma vez, aos anjos: pq fugir de si mesmo, se téns o paraíso a vossa disposição? - o anjo, com sorriso matreiro, responde: pq é o inusitado da humanidade q nos faz voar. - grande beijo, dona moça.

Posted by: Ricardo Branco em maio 19, 2004 05:54 PM

Olá, minha florzinha querida!!!

Nossa, isso que é Blog.. o resto é misantrópico...he he he
Sempre bom aparecer por aqui e deixar deliciosos beijos de saudações.

Danty

Posted by: Danty em maio 19, 2004 07:34 PM

Belo texto, profundo, me imaginei dentro da cena.
Como você escreve bem!

Posted by: @njinh@ em maio 19, 2004 07:49 PM

Sinto partes de realidade junto as palavras...numa mistura de dor e utopia dando a beleza na construção impecável. Tens um talento maravilhoso que os dedos transmitem em caracteres.
Gostei muito.
Beijos.

Posted by: Leandro em maio 19, 2004 09:02 PM

Namorada de mentirinha, que coisa bonita! Poxa, pena termos que passar por tantas provações, mesmo sentimentais, não é? São necessárias sim, mas tão ruins...
Que a ferida já esteja em fechada e curada, inóspita, esquecida.
Beijos lindona!!!

Posted by: Vi em maio 19, 2004 09:11 PM

Lembrei do texto que eu escrevi sobre a Mulher que acordara para a vida no dia em que a Guerra começou....

Ser anjo é algo um tanto quanto complicado. Eu posso ser anjo e nem saber. Mas sabia que você exerce esta nobre missão comigo?

Beijos.

Posted by: Matt em maio 19, 2004 09:45 PM

Oi MOça, quanto tempo hein. Vou passar aki mais vezes. Lindo texto, so um anjo como vc pra escreve-lo. Bjos

Posted by: Léo em maio 19, 2004 10:51 PM

Belas palavras como sempre... Valeu por ontem... Eu tava precisando...

Posted by: Mandraque em maio 19, 2004 11:50 PM

Novamente me surpreendes, como consegue,por tantas vezes???
Isso é formidável!
Não sei se lia um post ou se assitia a um filme, como você consegue dar vida as palvras ,frases e estrofes assim Lu???Maravilhosa.

Posted by: Dani em maio 20, 2004 12:38 AM

Em minha segunda chegada por aqui admito estar bem impressionada!
Parabéns. :-)

Posted by: R.L em maio 20, 2004 12:47 AM

Puxa Luciana, que sensível! E o final então..lindo!!
Beijo

Posted by: Laís em maio 20, 2004 01:48 AM

Noosa, emocionante... Me senti como se estivesse ao lado do narrado :-) ... Morrer de amor... É capaz de eu ter a doença talvez contagiosa que faz, as pessoas - hoje raras - morrerem de amor...

Posted by: Mariana em maio 20, 2004 05:04 AM

Bom dia!

Caramba que texto triste e ao mesmo tempo bonito.
Aliás, o anjo levou seu coração?

Bjs

Posted by: Diogo em maio 20, 2004 08:46 AM

OI MUSA LINDA e TRISTE (??)
Que texto lindo e intensamente triste...
Que será que anda pela sua cabecinha???
Beijos!!

Posted by: DO em maio 20, 2004 09:09 AM

Você é mesmo incrível. Lindo e triste... mas quem vai dizer que não há um beleza quase etérea na tristeza? beijosss e girassóis, Rah

Posted by: My_GirL em maio 20, 2004 10:52 AM

Anjos ou demonios, como sabemos se estamos diante de um ou do outro ? Desconfio de tudo que tem asas e um belo sorriso. Quando fecho os olhos e viajo pelos céus, me sinto melhor entre as criaturas de cor vermelha e asas negras, pois delas sei que tenho que me proteger. Mas quando estou do lado de uma imagem aluginógicamente angelical me entrego totalmente e fico completamente desprotegido. Sempre confiarei mais nos demonios pois quando estou com eles não corro o risco de me enganar, julgando-os pela aparência.

Posted by: Zanni em maio 20, 2004 01:03 PM

Padecer de amor. Muitos dizem que não há morte sem tê-lo sentido, e muito menos vida ..( ou algo mais ou menos assim..risos )

Beijo.

Posted by: Aninha em maio 20, 2004 03:43 PM

ai meu! q história triste...bonitas palavras, mas a história é triste.
num acredito que ela se matou...nossa...me chocou isso!
bejos

Posted by: Chell em maio 20, 2004 04:34 PM

é lindo....e triste...
bjus

Posted by: Juju =) em maio 21, 2004 12:02 AM
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