março 25, 2004

[ Por Trás do Filme A Paixão de Cristo ]

O mundo está mais careta, mais carola, mais conservador, mais puritano. Depois do movimento libertário que pregava o amor livre, a sexualidade vivida sem amarras e um comportamento mais solto e sem o peso dos compromissos e do controle, vivemos um revés disto tudo. Existem vários motivos. Com certeza, um deles é a exaustão. Hoje pode se ver, ouvir e fazer o que quiser, a qualquer hora, em qualquer lugar. Lembro-me das primeiras revistas mostrando seios e do escândalo que causavam. Agora basta acessar alguns sites e ver mulheres com corpos a mostra e homens musculosos se exibindo de todos os ângulos.
A coisa ficou tão fácil que ficou banal. Não significa mais nenhuma transgressão, nenhuma revolta libertária, nenhum diferencial. Atualmente o diferente é o contrário. É ser fiel, monogâmico, casto. Quem quiser transgredir no comportamento tem que ser careta. Fazer sexo só depois que casar, com a mesma pessoa e pro resto da vida. Ou então se abster de qualquer relação de troca de fluidos. Este movimento pode ser sentido em todos os cantos: nos discursos do presidente Bush, nas propostas apresentadas pelos políticos evangélicos – a religião que mais cresce no Brasil, no comportamento dos muçulmanos e até nos programas populares de TV.
No bojo desta onda de caretice surge o novo filme do Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Na realidade não teria motivo nenhum pra tanta polêmica e atenção. Uma história já por demais conhecida, com final que todos sabem e que já foi contada e recontada centenas de vezes de diversas formas. Estrategicamente o filme é lançado durante a quaresma - período de reflexão para os cristãos. E na onda dos protestos judeus ganha mais notoriedade e, por conseqüência, mais espectadores e mais movimento no caixa.
O diretor buscou recursos para que a história não fosse só uma repetição: falas em aramaico e latim, algumas interpretações particulares do narrado pelos evangelistas e o grau exagerado, e quase insuportável, de violência a que Jesus é submetido. A dor é mostrada com tanta ênfase, ângulos, efeitos durante todo o filme que eu fiquei imaginando se essa produção é algum tipo de sadismo. Na medida que os espectadores olham o sofrimento do filho de Deus se sentem culpados e partícipes na sua dor e, por conseqüência, chamados a um comportamento de reparação (relembrando as aulas de história da arte). O espírito primeiro da quaresma é este: conversão e retorno para Deus. Isto pode ser interpretado de várias formas, mas no discurso careta significa principalmente mudança no comportamento, recato, discrição, sacrifícios, controle. Devo confessar que chorei muito, como não havia chorado em filme algum.
Num discurso parcial e radical na interpretação, é como se quem tivesse um comportamento não convencional ficasse fora do amor de Deus e quem fosse ortodoxo neste específico, já ganhasse a salvação direta. Não por acaso a representação do diabo é feita por uma figura andrógina (pele límpida, sem pelos, olhos claros, longas unhas) como se o diferente encarnasse o mal.
Acho mais preocupante que em nome de um conjunto de crenças, que estão sujeitas a interpretações e localizações dentro da história e da cultura, se queria impor um modelo de comportamento a toda uma sociedade. A blasfêmia, só para ficar num exemplo, é apontada dezenas de vezes nos textos sagrados como um pecado maior. Pode haver pior blasfêmia do que usar de forma distorcida a história do filho de Deus para marketing pessoal e acúmulo de capital, se aproveitando de um período sagrado para os seguidores de Jesus como “isca” para lotar as salas de cinema e criando falsas polêmicas para chamar a atenção?
A história já mostra que depois de um período de liberalidade o revés conservador vem forte. A Alemanha pré-Hitler é um exemplo clássico. De uma vida cultural fervilhante e aberta às diversidades desaguou num período de repressão e de arianismo retrógrado. A liberal Califórnia após o advento da aids sofreu ondas de repressão e conservadorismo culminando com a escolha de um astro de cinema para governador, com discurso moralizante. Até o Rio de Janeiro, terra da pouca roupa e da malevolência, elege evangélicos radicais para serem seus governantes.
Falar do filme de Mel Gibson de forma isolada é não querer ver a obviedade do momento atual: o mundo esta ficando mais careta. A estabilidade está acima da aventura, a moral burguesa adiante de movimentos libertários. Não existe mais lugar para a revolução. Os revolucionários se tornaram burocratas ou pastores. E pensar que há dois mil anos um homem andava pela Galiléia pregando valores novos de tolerância, solidariedade e amor ao próximo. Nos dias de hoje seria considerado um deslocado e censurado para menores de 18 anos.


Por Musa Louca em 25.03.2004 - 09:15 AM
Comentários

Assisti esse filme, e realmente fiquei impressionada com as cenas de violência, ele apanha d+... mas foi assim né... lembro qdo li o novo testamento (no livro vida de Jesus) não lembro de ter lido esse sofrimento em excesso... mas é um filme que tem chocado d+ as pessoas... Abraços

Posted by: Pathy em março 25, 2004 10:08 AM

É um filme de MERDA, feito por um babaca que sem dúvida é sádico e masoquista, é só assistir a qualquer filme dele (dos quais gosto de muitos) para ver o amor pela carnificina e o sofrimento para depois dar a volta por cima. No fundo é o normal do pensamento hipócrita cristão. Para mim o que vc escreveu aqui foi a melhor definição/descrição do filme, uma blasfêmia, com várias implicações morais. O mundo é assim, as coisas vão e voltam em ondas antagônicas. Eu nunca entendi essa visão de que´É NECESSÁRIO SOFRER PARA SE SALVAR. Tudo que entendi até hoje do amor de Cristo (apesar de preferir o amor de Deus) é que deve ser sem interesses, com dedicação, pelo próximo, para o próximo, como forma de atingir a si próprio. Nesse filme de merda onde fica o AMOR?

Posted by: Paulo Schaun em março 25, 2004 11:20 AM

Oi, Musa Louca! Vc sumiu e eu também!
Seu template tá muito legal também. Aquele olhinho lindo não podia faltar, né? hehe
Vou atualizar o link pra apontar pra cá. Seu blog continua 10!

E não, ainda não vi Jesus apanhar feito boi ladrão.
E se A vida de Brian passar de novo no cinema, vou preferir o Monty ao Mel.

Beijão!

Posted by: João M. em março 25, 2004 11:55 AM

Realmente um filme de se chorar muito...entende-se tamanha polêmica!!!
Vc escreve e escreveu muito bem sobre...

bjos..
Kris.

Posted by: kris em março 25, 2004 11:57 AM

Cronica da atualidade!
Gostei.
Bem vinda ao mundo real! ;)

Posted by: Zen em março 25, 2004 12:01 PM

Musa, que atire a primeira pedra aquele que não chorar nesse filme! É muito sofrimento pra uma pessoa só, me senti impotente na hora!! Mas, esse teu artigo tá sensacional, tinha que estar no Globo, revista Veja ou alguma publicação similar. Parabéns pela abordagem!!

Posted by: Pernambaiano em março 25, 2004 12:29 PM

Acho q, esse filme, usa todo esses recursos da violência, choque visual para atrair um público que sempre foi menos interessado em temas religiosos, os jovens.

Sobre a rádio: Q bom q vc gostou, é mt maneira msm. E toca só clássicos empoeirados, nada do século XXI.

Bjs

Posted by: Diogo em março 25, 2004 12:30 PM

Ainda não o assiti. Estou ansioso por ver. Falta achar alguém pra ir comigo. Ou então irei sozinho. Um abraço lucy...

Posted by: Anderson em março 25, 2004 12:45 PM

A começar que o filme é "Hollywoodiano" feita em uma cabeça capitalista....bem, já era de se esperar esta esfera no filme. Eu ainda não vi, mas as polêmicas que ouço sobre estão me instigando a vê-lo.
Beijos

Posted by: Leandro em março 25, 2004 03:11 PM

filme que nao faço questao de assistir...
mas gosteis das ultimas frases do post =)
bjus marketeira =)

Posted by: Juju =) em março 25, 2004 04:31 PM

Quero namorar com você!

Posted by: Vi em março 25, 2004 09:36 PM

Pra mim, tudo não pássa de caretice.
E o por que disso tudo: o povo NÂO conhece a história de Cristo, gota da desgraça alheia e é tão reclacado, mas tão recalcado, que se ahca modernoso...

Posted by: Vi em março 25, 2004 09:38 PM

hmmm...eu acho que esse filme retratou muito bem a dor que Jesus realmente sentiu...
Acho que muitas pessoas sabem o sofrimento dele mas nunca imaginaram que foi de uma forma tão bruta...sempre pensam nele limpinho, arrumado...e no filme mostra a mais pura verdade...
quer dizer, isto é, se essa história for real. não que eu duvide da biblia ou algo assim...mas acho que tem certas coisas que a igreja católica nos disse e outras que ela não disse, pra assim então o ser humano ficar dessa forma como nós somos...quem sabe
bejos

Posted by: Chel em março 26, 2004 12:30 AM

Salve, baianinha linda!
Que saudade de vc, querida. Ando correndo tanto que não tenho tempo pra atualizar o blog e fazer visitas. Espero vê-la em breve numa de nossas belas conversas...
Beijos. E um ótimo final de semana proce!

Posted by: Sander em março 26, 2004 01:09 AM

Olá Musa,

Erh....que palavras, sabe este moralismo de meia tijela é baseado na pornografia chamada capitalismo que aparentemente incentiva a diversidade e a liberdade.
Este filme é bom... embora o cinema seja uma grande industria, ... erh religião é sempre um tema polêmico no cinema e nas artes: para os produtores-lucro, para a população moral,coisas do inconciente coletivo, cultura e etc, para os políticos: votos, para os generais:guerras,para os racistas: raça, no fundo acabo vendo pouca fé nisto tudo.

Beijos,Alex.

Posted by: Alexandre em março 26, 2004 04:32 AM

Poxa,LU,que crítica,hem??
Sem dúvida,a melhor que li sobre o filme.
Lúcida e atual.
Parabéns!!
Otimo final de semana a vc.
Beijos!

Posted by: DO em março 26, 2004 07:09 AM

Ótimo o seu post, tem tudo a ver. O que os governantes querem é criar uma sociedade padrão, onde a liberdade de expressão seja cada vez mais restrita. Legal, adorei e isto me fez pensar um pouco mais. Beijos

Posted by: O Analista em março 26, 2004 07:58 AM

Que bom que ainda existe gente jovem e crítica, que se dá bem com as palvras e consegue expor sua opinião de forma clara e interessante como vc faz.

Nossa! Gostaria de escrever bem assim!

Parabéns pelo excelente blog.


http://planeta.terra.com.br/informatica/geizacristina

Posted by: Geiza em março 26, 2004 09:39 AM

Não sei se vou ver o filme A paixão de Cristo. Talvez por sentir falta de coragem para interiorizar tanta violência. Talvez por direccionar essa violência para cada olhar de criança que todos os dias morre de fome ou é estropiada pelo ódio de outros, que as flagelam até à morte. Não entendo também a polémica sobre a acusação de quem é culpado ou quem o não é sobre a morte de Cristo, quando todos sabemos que o culpado é o Homem, e que Cristo morreu e continua a morrer todos os dias, por causa da nossa incompreensão e da nossa indiferença à mensagem deixada pelo filho que se fez Homem.
( escrito noutro blog, comn outro nome, mas sou todo eu na mesma)

Posted by: almaro em março 26, 2004 09:52 AM

Oie, Lindaaa!!!! Eu tava com saudades... adorei este lugar, mas nem tem sua boca me dizendo "welcome"... Eu concordo com esse seu pecado em número, gênero e grau, até fiz um comentário sobre o filme lá no meu blog...
Beijos, te adoro, não ficaria sem vir aqui...

Posted by: Lexs em março 26, 2004 06:20 PM

Esse seu ponto de vista sobre o filme e os tempos atuais foi TUDO!!!!! Agora, eu e meus pensamentos...

Posted by: Thiago Eduardo em março 26, 2004 10:06 PM

Ainda sou a favor do musical...

Posted by: Oh em abril 7, 2004 01:27 AM

O filme causou polêmica por que mostrou o fato da forma como ele aconteceu, Musa louca seus conhecimentos sobre Cristianismo se revelam pobres e insuficientes, ao reduzir o Cristianismo simplismente ao catolicismo romano,seguimento do qual o Mel não faz parte, quanto mais se aproveitar de doutrina dos católicos ( quaresma ) para realizar sua obra, Tá todo mundo criticando o cara só por que ele fez um filme onde nos mostra o que Jesus sofreu para nos livrar do pecado e da morte,quando digo 'nos livrar é claro que me refiro aos cristãos, a bíblia nos fala a respeito daqueles que serão condenados por causa da dureza de seus corações, a estes não podemos esperar nenhuma atitude Cristã se alguém se iludiu com as histórinhas que a tia contou no catecísmo, que pena o fato é que o acontecimento foi disso para pior, a condenação Romana não era nenhum parque de diversões, quase mil anos antes o profeta Isaías ja havia profetizado sobre o sofrimento do messias, esta registrado em seu livro até hoje na bíblia sagrada, o texto não deixa dúvidas a respeito do sofrimento do messias, querer minimizar o seu sofrimento é desvalorizar sua obra redentora, satanás tentou fazer isso quando uso Pedro para dizer que não deixaria que Jesus fosse crussificado, uma tentativa em vão de impedir a sua missão remissora, é claro que ele (satanás) não desistiu e continua até hoje tentando, minimizar o sofrimento de Cristo para nos libertar, devemos enxergar aquela cruz como sendo nossa, essa imagem deve causar um impcato tão grande que seja capaz de mudar totalmente a nossa vida nos colocando novamente em sintonia com o criador, somente após reconhecermos nossas culpa e a necessidade de morermos na cruz juntamente com Cristo e que poderemos reviver para a vida eterna.
Ass: Zion

Posted by: Zion em maio 13, 2004 10:45 PM

Para Zion:
Eu, sinceramente, sou do tipo de pessoa que acha que política, religião e gostos pessoais não são assuntos a serem discutidos.
Essa foi a minha opinião sobre o filme. Li a sua atentamente. E o que eu posso te dizer apenas é que cada um acredita naquilo que quer.
Para mim a culpa será sempre imposta aos seres humanos para atraí-los a determinadas situações e lugares.
As religiões serão para sempre o melhor exemplo de marketing da história. Ora mostrando a culpa, ora mostrando a salvação, elas sempre conseguem trazer o seu rebanho de volta.
Obrigada pela visita.

Posted by: Musa Louca em maio 14, 2004 12:24 AM
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