março 02, 2004

[ Não fala mais comigo ]

O mar não fala mais comigo, o guarda-roupas nunca falou comigo, meu pai não tem falado comigo, meu papagaio está dormindo, as margaridas não cheiram mais como antes e as paredes não dizem nada e me olham. O lugar passa. Eu passo pelo corredor, entro no banheiro, a torneira faz seu monólogo, mas não é uma conversa. A vela não está dialogando com o som, nem o som se dirige a mim e espera minha opinião, vai indo de uma música à outra sem se importar se estou gostando. Ou não. Não espera que eu peça uma música, simplesmente toca. Eu não espero mais que esperem minha voz, eu falo e me escondo, e me escondo e falo mais baixo.

Lá embaixo havia um diálogo. Minhas pernas tentam conversar, mas suas mãos ficam longe de escutar - precisaria se aproximar, e me ouvir, ouvi-las, é o que você quer? É o que eu quero? Eu quero dialogar. Não precisa ser assim, claro. Não há outro jeito, eu tento conversar com meu umbigo, não há saída. Minhas saídas seriam ler e ler e ler, assistir um filme, mergulhar em outra realidade que não fosse a minha, dessa minha estou cansada. Mesmo. Cansada mesmo dessa minha não-realidade presente. Minha realidade é querer outras realidades, talvez presentes - em quem? Onde? Onde está minha mãe? Ali deitada, em outro quarto. Onde fica meu pai? Ali no telefone, em outro estado. Eu estou alterada, estado alterado de carência extrema. Saco. Sem pai nem mãe nem imaginação, imaginação poderia me salvar - salvar de quem? Dessa maldita insônia. Estou morrendo por falta. De sono. Essa falta de troca, de imaginação, troca de imaginações. Escambo de realidades. Venda de colo, quanto meus ouvidos devem pagar por um colo? Troca de olhares, vejo você de outra forma, veja a si mesmo dessa forma - mexendo no meu cabelo enquanto fala, vamos fazer o quê? Esperar por uma frase, esperar por quê? Trocar a minha alma por um beijo. Não, não me ligue, eu não espero mais que um colo, não queira mais que poucas palavras, eu quero ficar quieta, eu quero falar muito, não espere a mínima coerência, tenho pensado tanto que cheguei à incoerência de não saber como dizer. Tento treinar com as paredes - ainda sei beijar? Acho que não, acho que nunca soube realmente. Você gostava de como eu beijava? Ok, muitas vezes eu não queria beijar, tinha uns ataques cinéfilos de beijos antigos, lábios colados numa posição que fazia rir. Ou, por aquele filme que eu gostava tanto, "na boca não" - mas o seu beijo, eu amava. Você simplesmente tinha que conviver com meus ataques, e eu com os seus. Era tão complicado assim, ou nos entendíamos em nossos desentendimentos? Entender não é importante. Eu te amava. Você entende porque alguns casais se amam e outros não? Entende porque eu não amei todos que eu conheci? E acha que conheci todos com quem fiquei? Acha que você me conheceu pouco ou bastante, o bastante para me odiar, um pouco para se sentir apaixonado no início ou lá pelo meio? Acha que estou complicando o simples, e apenas isso, complicando o que é simples?

Não nos falamos mais, é simples, isso é simples e difícil. Difícil para mim. Acho que não repetiríamos erros (brutais, imaturos) mas se repetíssemos, acho que eu... não, não acho que repetiríamos, nada se repetiria. Somos outros agora, sendo os mesmos, então acho que... a minha natureza, a sua natureza, fora daquele contexto, fora daqueles nossos problemas, dentro de outros problemas, sendo a realidade outra, essa, agora, atual, como seria? Conversaríamos sem receios, como antes? Seria espontâneo (isso é perigoso, dependendo de - de tantas coisas, de quem seja, e com quem, e quem está ao redor, e etc, tantas coisas, onde eu estava? - ah isso pode ser perigoso, ser espontâneo...) - mas seria espontâneo ou haveria um - muro? Defesas entre nós? Palavras entre nós? Quero colo - seu, não das margaridas. Procuro o colo delas. Agora. Eu converso com elas, reclamo que o mar não fala mais comigo, o mar verde-água translúcido com algas macias e perfumadas no fundo. O mar que morava em mim quando eu mexia no seu cabelo. O mar que se agitava em mim quando eu deitava com você. O mar que escrevia quando você me abraçava. O mar que era música enquanto a gente acordava. Eu, aos poucos, vou andando. Até o guarda-roupas, que nunca falou comigo, buscar alguma coisa que não se encontra lá.

* Essas noites de insônia estão me matando.
Por Musa Louca em 02.03.2004 - 12:40 PM
Comentários

Sei como está. Minha história você também sabe. Tão carente estou que chego a me achar ridículo a ponto de ter vergonha de tudo o que se passou comigo. Com vergonha de me olhar no espelho, pois este me viu tantas vezes chorar. Vergonha do som que, por emitir vibrações com pérolas que me tocavam, fiz misturar soluços à música.
O cansaço me isola. Estou em uma ilha bem longe, dentro da minha concha, dentro de um buraco em uma pedra embaixo d’água. Estou errado? Sim, mas o ânimo sumiu. Sou assim... tolo que sofre só. Vivo dentro de uma piada a qual não rio, pois não a entendo. E será que vou entender?

P.S. Peço desculpas por usar seu espaço para escrever isso... devia usar o meu, mas seu texto me tocou.

Posted by: HellBoy em março 2, 2004 01:15 PM

Que bonito, blog novo, lugar novo... Gostei dessa mudança! O texto é maravilhoso, como sempre, profundo, como sempre, único, como sempre... E eu, como sempre, lhe parabenizo por este dom!

Beijos...

Posted by: Mariana em março 2, 2004 01:55 PM

É chato quando não se tem com quem conversar... Eu to aqui, sempre, quando precisar é só chamar. Bjs

Posted by: Diogo em março 2, 2004 02:22 PM

Até 2005...

Posted by: Triton em março 2, 2004 02:29 PM

Eu durmo bem
E ando triste
Quando estou acordado

Posted by: Zen em março 2, 2004 02:30 PM

Ufa...admito ter ficado meio zonzo com tantas palavras. :-)
E admito também que senti um banzo danado delas...

Beijo.

Posted by: Beto em março 2, 2004 03:21 PM

Olá Lu!

Blog novo!!! Ficou 10!

Agora sim, consigo postar.
Já lhe escrevi por e-mail, pois não conseguia comentar (no outro), dá sempre uma mensagem de "erro em tempo de execução..."

Lindo seu texto. E produzi-lo a partir de emoções que nos assaltam assim, sem uma razão de ser, numa noite insone.
É, esse misto de sensações, tristeza, saudade, solidão, às vezes, é necessário "sentir", como a um remédio amargo. Expurga os males, arruma nossa gavetas emocionais.
Um beijo e fica com Deus.
Luciana - Fortaleza/Ce

Posted by: Luciana Lopes em março 2, 2004 05:48 PM

Semeador

Semeando grão em desejos
Correm deitados pelo som
Desejando são benfazejos
Morrem enfeitados,pêlo,tom

Busca a cor enquanto cheira
Segue nu, sem ti, Helena
Ofusca opor que manto queira
Cegue Tu, em si, serena

Desejo em mim, boca pequena
Carrego na alma teu nome
Despejo carmim,louca morena

Entrego no carma quem come
D'um tanto cheio de dor
Um canto feio, de amor

Posted by: Bushi em março 2, 2004 08:33 PM

essas pessoas que gostam de humilhar com seus templates...
Parabéns pelo novo cantinho, tá show!!!
Bjos

Posted by: Vi em março 2, 2004 09:51 PM

Oi,MUSA LINDA!!

Que texto,hem?
Como sempre,muito,mas muito bom.
Es´pero que ,logo logo,alguém se digne a falar com vc.
Beijos!!

Posted by: DO em março 3, 2004 07:40 AM

Nossa agora sei porque você escreve tão bem, é canceriana tem a sensibilidade a flor da pele... E vc já fez algum livro virtual?
Apenas vi no seu outro blog textos seus... mas um livro para baixar não...
Gostei mto da sua nova casa!
Abraços :)

Posted by: Pathy em março 3, 2004 10:11 AM

OI

CONHECENDO A NOVA CASA, está bonita! Pretendo vir com mais tempo.

abraço

Posted by: MARYLIN em março 3, 2004 10:44 AM

Ainda nao estou convencido de que cibernetica nao passa de sistemas com mecanismo de feedback e controle... ;p

Posted by: Zen em março 3, 2004 02:10 PM

Oi Lu,

Site novo, tb tou com novo blog. Nossa profundo isso, essas emoçoes conturbadas de cancerianas pos-termino...Melhoras, voce sabe que isso passa, de uma maneira ou de outra, demorando ou nao.
Bjos e se cuida

Posted by: Chan em março 3, 2004 11:17 PM

tá a fim de bater um papo maneiro comigo??? queria te ver. nos falamos há quase um ano e sempre furamos nossas saídas... como vc tá??? faça greve tb com tudo aí e pare de falar, ué!!! aqui em casa funciona! [risos]

Posted by: Ricardo em março 3, 2004 11:53 PM

Olá Musa...

Bem... sua casa nova ficou bem interessante-linda- Ah sim quanto a vc poxa quando li, sabe cada palavra puxou um recordação, eu lembrei o quanto vc é capaz de sentir... erh.. estou sem palavras pq vc apesar de tudo escreve oque é real. Luciana te desejo(suplico aos deuses um bom sorriso teu) daqueles cheios de felicidade, espero que nada derrube as tuas asas. Do caos nasce o destino a tristeza gera o amor e vice-versa.
Uma Musa precisa de sorte, para poder viver.
Mas os poetas sempre acreditam em Musas.

Beijos, ALEX.

Posted by: Alexandre em março 4, 2004 01:29 AM

Eu entendo, estou bebado e triste com dor de cotovelo, mas sei que na vida a gente tem que aceitar tudo, tenho que aceitar viver sem amor viver sem quem eu amei por muitos anos(6) sem poder voltar no tempo e corrigir meus erros , sei que não pode corrigir seus erros e que sua vida é muito diferente da minha, mas eu entendo todas suas dores como se eu as tivesse vivendo, pois sei que a vida é dolorosa, amanha não estarei nem lembreando de quem vc é, pois estou semi-inconsiente, mas saiba que encontrei em Deus (e não sou beato!) as respostas! procure o kardecismo, ele vai te ajudar! Eu também te amo!

Posted by: Um triste em maio 6, 2004 02:59 AM
Poste um comentário









Lembrar informações pessoais?